A imprensa entre o "furo" e a "barriga"
A imprensa, aqui e lá fora, tem acumulado, ao longo do tempo, uma série de deslizes informacionais dignos de nota. O jargão jornalístico tem um termo - "barriga" - para designar as bobeadas dos jornalistas, assim como lança mão de outro - o "furo" - para indicar aquela notícia "bomba" veiculada exclusivamente por um veículo. Em nossas terras, certamente a "barriga" mais famosa ficou conhecida como o episódio do "boimate" e foi protagonizada pela Veja, nossa revista líder de audiência. Até hoje, costuma-se invocar este exemplo (isto é feito sobretudo por pessoas que não militam na imprensa, pesquisadores em particular) para qualificar negativamente ou mesmo para provocar os jornalistas.
O "boimate" foi publicado pela Veja em abril de 1983 e referia-se a uma "sensacional" descoberta ocorrida na Alemanha (mais precisamente na cidade de Hamburgo - o que, como iremos ver nada tem de acidental). Dizia respeito à pesquisa de investigadores alemães que, respaldada em processo inédito para a fusão de células animais e vegetais, culminou com um produto singular: o "boimate", meio carne, meio tomate, ou seja algo que dava em árvore e que, em resumo, se constituía em um hambúrguer que já vinha com catchup. Você acha que é brincadeira nossa? Pois é, a Veja publicou esta notícia na sua página de ciência e incluiu para a repercussão do fato o depoimento de um cientista da USP (deve estar arrependido até hoje).
Na prática, tudo não passou de uma brincadeira da revista inglesa New Science que tem como praxe, como fazem muitos veículos de imprensa ao redor de mundo e também pessoas de espírito jocoso, encaminhar notícias malucas perto do dia 1º de abril - o dia da mentira - para órgãos de imprensa, torcendo para que alguns deles caiam na brincadeira.
Em geral, quem inicia o jogo dá pistas para alertar os incautos. No caso do "boimate", a Universidade de Hamburgo (onde a investigação teria sido realizada) e o nome dos pesquisadores - Barry McDonald e William Wimpey tinham esses nomes para lembrar as cadeias internacionais de alimentação McDonald´s e Wimpy´s - não foram escolhidos por acaso.
O Correio Braziliense, jornal tradicional de Brasília, na década de 90, também comeu a sua "barriga" ao noticiar a descoberta em São Paulo do "mico leão prateado" que, segundo a notícia, seria uma mutação do "mico leão dourado", provocada pela poluição paulista. O veículo não percebeu que o telefone que constava do release responsável pela brincadeira era do Disk Piada de Brasília e nem se importou com o fato de que a bióloga que teria achado a nova espécie ostentava o sugestivo nome de "Isa Joke". Mereceu, por isso, a gozação que permanece até hoje.
Infelizmente, no entanto, os "boimates" e os "mico-leões prateados" não são coisas do passado e povoam os nossos veículos o tempo todo, pairando como ameaças à credibilidade da imprensa e dos jornalistas.
Em geral, estas "barrigas" estão revestidas de alguma veracidade - muitas vezes as fontes são pesquisadores (?) de universidades de prestígio em todo o mundo - e reportam fatos que, aos profissionais da imprensa pouco atentos, podem parecer razoáveis. Hoje, por exemplo, com os xenotransplantes e a biotecnologia, talvez não fosse maluco imaginar a fusão sugerida pelo "boimate" e a teoria da evolução, levada ao pé da letra, pode mesmo justificar mutações em espécies ao longo do tempo em decorrência de adaptações ao meio ambiente. Daí chegarmos a um hambúrguer com catchup que brota em árvore ou a um mico leão prateado vai uma distância enorme, ou seja tem cara de "barrigão", bota "barriga" nisso.
A Internet tem propiciado, pela aceleração da informação (e com certeza pela falta de atenção e espírito critico de muitos jornalistas), outras "barrigas" respeitáveis, como a do Diário do Grande ABC que, em abril de 2001 (será que os coleguinhas não perceberam ainda que o mês da mentira pode ser fatal para a sua credibilidade?), divulgou com destaque o "exoesqueleto" de Stephen Hawking, um prêmio Nobel que, além da sua genialidade, é conhecido por estar preso a uma cadeira de rodas em virtude de uma doença degenerativa que o atacou precocemente. O Diário do Grande ABC acreditou em uma notícia publicada na Web para informar os seus leitores de que pesquisadores generosos haviam criado uma armadura de titânio para o cientista, que exibia características especiais: dispunha de uma ferramenta de infravisão que lhe permitia observar os fenômenos subatômicos, terminais de laser e até tanques de oxigênio para tarefas subaquáticas ou pesquisas espaciais.
Enfim, os jornalistas estão cada vez mais vulneráveis às "barrigas" porque, sem tempo para checar as informações e ávidos por "furos", baixam a guarda. Os "boimates" não precisam ter a dimensão do "boimate" publicado pela Veja e ocorrem, se não estivermos vigilantes, todos os dias. O "boimate" aparece quando os jornalistas comem na mão da agência da Monsanto e repetem às escancaras as maravilhas dos transgênicos (que vão matar a fome do mundo, que são melhores do que as sementes tradicionais ou usam menos agrotóxicos - haja glifosato!). Ele esteve presente quando os jornalistas acreditaram, em todo o mundo, que o fumante passivo não era penalizado pelo cigarro ou fizeram a apologia do "cigarro light" (a indústria tabagista sempre teve um "narigão" imenso, fruto de suas mentiras). Ele passou por aqui quando se divulgou ingenuamente que a Merk havia retirado "espontâneamente" o Vioxx do mercado, quando na verdade havia processos aos montes nos EUA por pessoas vitimadas pelo medicamento. Ele teve impacto demolidor no caso da "Escola Base" e em muitas outras situações que, infelizmente, envergonham a mídia brasileira.
Olho nos "boimates" e uma advertência: eles não chegam apenas no mês de abril. Talvez nesse mês eles sejam, na prática, os menos perigosos. E uma dica de quem se acostumou a descobrir novos "boimates": todas as fontes são, em princípio, suspeitas. Não acredite, sem pestanejar, em fontes que exibem seus títulos (doutores da USP ou da Unicamp, presidentes de associações profissionais ou científicas) ou não vá no canto de sereia de agências a serviço dos grandes interesses (há agências competentes e éticas, pode crer). Há muito lobo em pele de cordeiro e as versões costumam ser mais comuns do que os fatos. Em tempo: é fundamental nos episódios que envolvem o conflito entre os indígenas , a Vale e a Aracruz consultar também os verdadeiros donos da floresta.
Talvez a imprensa prefira ouvir apenas as empresas por uma questão ideológica. Eu estou propenso a acreditar que é por preguiça (o que é, a meu ver, muito mais grave): os indígenas não tem assessorias e por isso os jornalistas e veículos indolentes teriam, para saber a verdade (ou pelo menos uma parte delas) que tirar a bunda da cadeira. Para muitos deles, é mais cômodo e mais seguro esperar que as versões caiam no colo. Jornalistas que não saem das redações com certeza comem mais "boimates". E a sociedade é que paga essa conta.
Observação: os fatos relatados aqui podem ser consultados no Portal do Jornalismo Científico online (http://www.jornalismocientifico.com.br). O site tem um sistema de busca interno e com palavras chaves (boi mate, exoesqueleto etc) os textos específicos podem ser recuperados. Há outros por lá. Divirta-se, ainda que, em muitos casos, dê vontade de chorar. Cada "barriga"...
* Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor da UMESP e da USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa. Editor de 4 sites temáticos e de 4 revistas digitais de comunicação.
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