Arroz, feijão e internet
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Motéis e igrejas proliferam em Manaus (AM). Ocupam, muitas vezes, quase o mesmo espaço - as leis da física e do bom senso impediriam, é verdade - mas compartilham a vizinhança com aparente naturalidade de quem não se incomoda, de fato. A avenida Torquato Tapajós, uma das mais extensas de Manaus, se não é, poderia ser um retrato bastante preciso da capital do Amazonas. A partir de uma região povoada e de intenso movimento urbano, ela avança até a borda da cidade, onde as ruas paralelas e transversais rareiam, e se encontra com a BR-174, que leva até outros municípios e alcança a Venezuela. Na avenida Torquato Tapajós repousa a Nova Igreja Batista da Chapa, em um prédio que se impõe não exatamente pela beleza, mas por uma arquitetura que lembra a de um supermercado. Um pouco adiante, o Motel Savana antecipa a sequência de outros muitos motéis. Ambos, motel e igreja, são dois símbolos de alternativas para aqueles a quem parece não sobrar mais nada senão a fé ou a sobrevivência sexual, inclusive as mais perversas das duas.
Para chegar ao bairro de Jorge Teixeira 4, na zona leste da cidade, serpenteio em ruas largas, sob o sol e sobre o asfalto quentes. No destino, em meio a casas pobres, os projetos Prato Cidadão e Casa Brasil representam duas iniciativas públicas apoiadas pela Moto Honda da Amazônia. Sob o mesmo endereço, a primeira é um restaurante popular onde são servidas 500 refeições diárias, com acompanhamento nutricional, ao preço de R$ 1. A segunda, um espaço de inclusão digital, criado pelo Governo Federal em todo o país, onde os moradores podem fazer cursos de informática e acessar a internet gratuitamente. Em frente ao projeto, uma lan house amarga a falência. Um pouco adiante, um restaurante enfrenta as mesas vazias.
No andar de baixo, a divisão em turnos de acordo com a capacidade de atendimento do restaurante impede que ele se pareça o que é: ao preço de R$ 1, espera-se uma fila interminável e caótica. Logo cedo, os interessados e cadastrados no programa retiram sua senha e retornam no horário marcado. Muitos levam seus refrigerantes em garrafas PET de dois litros. Famílias inteiras almoçam juntas. O financiamento de um projeto aparentemente assistencialista por uma multinacional da envergadura da Honda gera desconforto entre os jornalistas especializados em meio ambiente. Antes, uma repórter perdeu a paciência: "esses projetos não são sustentáveis", referindo-se às ações brasileiras do programa global da companhia, "Together for tomorrow". Naquele dia, o cardápio era arroz, macarrão, salada de beterraba, frango assado, farofa.
Já em cima, o alimento é virtual. O projeto "Casa Brasil", iniciativa interministerial do governo federal, oferece conexão à internet, cursos de informática e de conserto de computadores, oficina de multimídia e sala de leitura, além de um pequeno auditório onde a comunidade se reúne para discutir a situação do bairro. Os monitores, adolescentes da própria comunidade, são remunerados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e, segundo o governo, o projeto tem o objetivo de "capacitar os segmentos excluídos da população para a inserção crítica na Sociedade do Conhecimento, buscando superar e romper a cadeia de reprodução da pobreza". A Honda oferece o pagamento do aluguel do prédio e cede computadores descartados para as oficinas.
Com o alimento do andar de baixo, é possível evitar a vulnerabilidade da fome, que pode arrastar meninas, jovens e mulheres à exploração sexual, entre outros problemas sociais. Com o alimento do andar de cima, evitar a exploração religiosa que alavanca outros tipos de violência geradas pela pobreza.
O Prato Cidadão e a Casa Brasil ficam na Rua Nova Esperança.
Rodrigo Manzano viajou a Manaus (AM) a convite da Honda South America.
* Rodrigo Manzano é Diretor Editorial da IMPRENSA e professor de Jornalismo na graduação e pós-graduação do UniFIAMFAAM, em São Paulo.
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