A vida de Letícia Fernandéz, pseudônimo da jornalista que escreve no blog
"Cem Homens", deu uma reviravolta em menos de uma semana. No site, ela se propõe a transar com cem homens em um ano, apenas por prazer. Devido à ousadia, a blogueira sofreu diversas agressões na internet de pessoas que postam comentários preconceituosos e machistas, além de ter sido alvo de uma entrevista falsa à Rádio Globo, admitida pela emissora em comunicado oficial.
Tudo começou com uma entrevista à revista Época, na qual o repórter atribuiu à Letícia um "forte sotaque nordestino". Este comentário bastou para que uma avalanche de postagens associando sua suposta origem à prostituição entupissem sua caixa de e-mails. "Foi uma carga de preconceito bizarra. Não sei de onde tiraram isso, que eu sou nordestina". Ela pediu, então, para que o jornalista retirasse essa informação de sua matéria.
Ela conta que a ideia do blog surgiu de uma brincadeira, uma proposta que fez a si mesma, para registrar suas sensações e percepções sobre seus encontros com vários homens. "Sempre fiz sexo casual, isto não é uma novidade para mim". O que a interessava eram as pessoas que conhecia em suas noites. "O sexo acabava ficando em segundo plano".
Letícia já foi colaboradora da revista Nova, onde hospedou inicialmente o blog "Sexo com cem homens". A partir de então, a página na internet tomou proporções que a jornalista não imaginava. Chegou a receber "milhares" de comentários e perguntas, de mulheres casadas inclusive, e, segundo ela, "muitas se identificavam" com o que havia vivido. Depois, o site foi desvinculado da Nova e modificou o nome para "Cem homens", uma forma de os leitores ainda se identificarem com o blog.
Porém, nem sempre a repercussão do site foi positiva. No dia 31 de agosto, a Rádio Globo veiculou uma
suposta entrevista com Letícia, que na realidade não era ela. Na ocasião, os entrevistadores criticaram e fizeram piada do blog, "expondo um machismo e preconceito velado". A entrevista quase fez com que Letícia desistisse do site. "No dia da Rádio Globo eu chorei. Eles nunca entraram em contato comigo. Eu acordei, abri meu email e vi uma mensagem de um homen falando: 'ouvi sua entrevista na rádio e quero transar com você'. Fiquei abalada. As pessoas falam 'você não é bem resolvida?' Sou bem resolvida sexualmente, mas tenho outros problemas,como qualquer outra pessoa, como insegurança."
Segundo a blogueira, ela entrou em contato com a rádio, que não explicou claramente como eles conseguiram seu suposto contato. "A justificativa deles é ridícula... De que entraram em contato com uma rádio e eles passaram o contato de uma mulher". Conforme ressalta, eles [o pessoal da rádio] não esclareceram suas dúvidas, mas ofereceram um espaço para se defender, em entrevista, o que ela recusou. "Estou extremamente desapontada com as reações, como jornalista e cidadã, pois forjaram uma entrevista comigo".
A jornalista disse que ficou abalada com o episódio. "As pessoas falam que por eu escrever um blog sobre sexo, eu dei minha cara para bater. Coloquei minha cara, mas não pra bater". Para ela, os xingamentos são uma prova de que "o machismo é arraigado na sociedade. Qualquer mulher que tenha desejo sexual, necessariamente, tem que ser prostituta? Não, mulheres gostam sexo. Nem que seja um homem, para transar 365 dias por ano com o mesmo cara". Apesar dos percalços, Letícia afirma que está muito feliz e continua registrando suas aventuras no blog, sem preocupação.
Em comunicado oficial, a Rádio Globo admitiu seu erro, revelando que, de fato, entrevistou uma pessoa que não era Letícia. "Reconhecemos que a produção do programa 'Show do Antonio Carlos' foi ludibriada por uma impostora", diz parte da nota. A rádio disse ter procurado a jornalista em veículos do Nordeste, baseada em informações sobre sua origem divulgadas na imprensa.
Como forma de retratação, a emissora afirmou ter convidado Letícia para falar no mesmo programa. E acrescentou: "Aproveitamos para informar que procedimentos internos estão sendo criados, para que tal situação não volte a ocorrer na Rádio Globo".
* Com supervisão de Gustavo Ferrari
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