O assassinato de Vladimir Herzog durante a ditadura militar causou choque à sociedade brasileira, especialmente porque o país passava por um momento de distensão política durante o governo do General Ernesto Geisel. No entanto, passados quase 37 anos, nem o Brasil, nem a família do jornalista sabem ao certo o que houve naquela noite nos porões do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), em São Paulo.
Em junho, o ex-governador de São Paulo Paulo Egydio Martins declarou em entrevista à Globo News que “maquiou-se um suicídio [de Herzog], não houve suicídio, ele foi assassinado dentro das dependências do 2º Exército na rua Tutóia, em São Paulo”.
Prestes a iniciar seus trabalhos, a Comissão da Verdade pode trazer às claras a verdade sobre a morte do jornalista, inclusive revelando os responsáveis imediatos pelo crime. Entretanto, o Estado já se responsabilizou oficialmente pela morte de Herzog, quando a Comissão de Anistia concedeu anistia política a ele.
Ao lado de outros personagens da luta contra a ditadura militar, o caso do jornalista teve grande influência em outras decisões da Comissão de Anistia. Segundo Paulo Abrão, Secretário Nacional de Justiça, “o caso Herzog é emblemático porque simboliza a repressão em seu viés de maior violência contra cidadãos que não se engajaram na luta armada”.
Para Abrão, casos como os de Herzog, Manuel Fiel Filho e Rubens Paiva são a desconstrução do mito de que a ditadura reagiu à violência da luta armada. “Essa história é relevante, em primeiro lugar, por desconstruir uma justificativa da violência da ditadura. E, em segundo plano, porque demonstra que a nossa ditadura atingiu amplos espectros da nossa sociedade, bem como suas formas repressivas também desconstituem o mito da ‘ditabranda’”, comenta.
Em março de 2012, a Organização dos Estados Americanos (OEA), por meio de sua Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), deu início a um processo para investigar a falta de punição praticada pelo Brasil em relação ao assassinato do jornalista.
Na época, Ivo Herzog, filho do jornalista, disse à IMPRENSA que a decisão da OEA era o resultado de um esforço de várias gerações para trazer a verdade à tona.
De acordo com o Secretário Nacional de Justiça, ações como esta “demonstram que o esforço pela reconstrução da verdade histórica, pelo aprofundamento democrático e o respeito aos direitos humanos transcendem a dimensão nacional”.
Ele entende que a cobrança por investigações no caso do assassinato do jornalista pode complementar a ordem jurídica nacional, colaborando para a construção na verdade no Brasil. “Particularmente vejo com bons olhos o fato de que um órgão dessa relevante institucionalidade esteja ajudando o Brasil a passar sua história a limpo”.
O Secretário Nacional de Justiça também comentou o fato de pessoas ligadas aos órgãos de repressão se pronunciarem sobre o caso Herzog antes do início das apurações da Comissão da Verdade. “Ao meu juízo, os testemunhos das vítimas não pode ser equivalente em termos de credibilidade ao dos repressores, até porque esses últimos sempre estarão numa posição de negação ou justificação das suas violências”.
Na opinião de Abrão, talvez o país não tenha acesso pleno e irrestrito à verdade das circunstâncias da morte do Herzog. Sendo assim, “esses testemunhos tem como contribuição não construir uma verdade absoluta sobre a história, mas diminuir o espectro de mentira”.
Para Ivo Herzog, a Comissão da Verdade representa o momento em que o Estado vai contar oficialmente a história da ditadura e revelar quem foram seus protagonistas. Mas, no fundo, o que ele e sua família esperam mesmo é “saber quem foram os personagens” do crime.