"O jornalismo precisa resolver contradições", diz Celso Unzelte

Mariana Rennhard* | 14/05/2012 16:35

Quando criança o paulista Celso Dario Unzelte  tinha um sonho: ser desenhista de histórias em quadrinhos. No entanto, como não encontrou nenhuma faculdade que lhe possibilitasse essa formação, adaptou seus interesses pela leitura e escrita, bem como sua curiosidade pelas coisas para se formar em jornalismo. “Eu queria, na verdade, trabalhar com alguma coisa que me desse prazer. E eu sempre tive muito prazer em ler, escrever e conhecer. Achei que isso encaixaria bem na área ligada às comunicações”, revela.


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Com um currículo que inclui passagens pela revista Placar, o jornal Notícias Populares e a revista Quatro Rodas, Unzelte especializou-se na área de esportes, dando ênfase à pesquisa histórica. Atualmente, é comentarista dos canais ESPN/ESPN Brasil, professor de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e editor do caderno semanal de Esporte do Diário do Comércio. O jornalista tem nove livros publicados na área esportiva, entre os quais se destacam o “Almanaque do Timão” e o recém-lançado “Santos: 100 anos, 100 jogos, 100 ídolos”.

Sobre o jornalismo esportivo, Unzelte considera que existe um preconceito em relação à área e que isso parte, principalmente, de seus colegas de profissão. “Eu acho que o grande preconceito começa com nossos próprios colegas. Os jornalistas de outras áreas enxergam o jornalista esportivo como um profissional menor, um profissional de interesses menos legítimos. Eu cansei de ver gente em redação que se orgulhava de falar, em alto e bom som, ‘eu não entendo nada de futebol’”, conta. Embora existam pessoas que têm vergonha de falar que assistem aos jogos de futebol, o jornalista e pesquisador considera que os esportes também são notícia. “Tem coisas acontecendo nessa área. Tem material para o jornalista ali. Existem dramas humanos, pessoais... Existe catarse coletiva. Ultimamente, a área de esportes tem muito de economia, de política, de interesses do país, envolvendo principalmente Copa do Mundo.”

Defendendo que o jornalismo esportivo é antes de qualquer coisa jornalismo, Unzelte considera que essa área das comunicações precisa resolver contradições. “O jornalismo precisa resolver algumas contradições. Vivemos em um mundo em que é muito difícil surpreender as pessoas com qualquer coisa. Eu lembro que até os anos 70 existiam informações que, se eu não comprasse determinada revista ou se eu não assistisse determinado programa eu não conheceria. Hoje o mundo já não é assim”, explica. 

Crédito:Adriana Vichi

Embora exista esse preconceito em relação ao jornalismo esportivo, o público parece querer notícia sobre essa área?
Sim, o público quer notícia sobre futebol e agradece quando é bem tratado. Eu vejo as manifestações das pessoas no metrô, por exemplo. Elas dizem ‘bacana o trabalho que você faz’, referindo-se aos veículos como aqueles em que eu trabalho como a ESPN Brasil. As pessoas agradecem falando ‘que legal o jeito que vocês abordam o assunto. Respeitam a nossa inteligência’. Eu fico muito satisfeito com esse retorno, porque cada vez mais a gente vai conseguindo espaço e provando que dá para falar de coisas que, em tese, são mero entretenimento de uma maneira mais aprofundada, com respeito a quem está recebendo a sua mensagem. Eu acho esse respeito fundamental.
Mesmo quando eu trabalhava na revista Placar, às vezes as pessoas falavam "você está caprichando muito nesse texto. Para quem é, está bom" ou "é gibi para o garoto que gosta de futebol". Eu não gostava disso porque eu era um desses garotos. As pessoas gostam, são apaixonadas por esporte como poderiam ser por jazz, cinema ou qualquer outro assunto. Acho que essas pessoas merecem respeito. E é uma oportunidade para aqueles que ainda veem o esporte pelo esporte ou o futebol pelo futebol aceitarem outros interesses. É você utilizar o esporte como uma maneira de fazer com que as pessoas conheçam outras coisas. Grandes jornalistas esportivos como Mauro Beting dizem que se alfabetizaram com a revista Placar por causa do futebol. É um método muito eficaz para que as pessoas queiram conhecer mais.

Como você o enxerga o jornalismo esportivo hoje? Porque o tratamento dado a ele mudou ao longo dos anos.
É verdade. Aliás, muito do preconceito que se tem com o jornalismo esportivo se justifica pelo o que ele era. Ele melhorou muito. O próprio país evoluiu. Hoje a gente tem a oportunidade de falar de esporte. Antigamente, não tínhamos essa porta, era a bola pela bola, o esporte pelo esporte. Embora já nos anos 70 a revista Placar tenha ficado famosa por sua atuação, quando Dom Paulo Evaristo Soares assumiu como arcebispo de São Paulo e publicou na Placar uma pastoral ao povo corintiano, porque o Corinthians era o time dele e estava há 20 anos sem títulos. Mas, na verdade, nas entrelinhas, ele falava da ditadura militar. Ele não falava de fato dos 20 anos sem título do Corinthians, mas dos 10 anos, na época, que depois seriam 20, de ditadura militar. Houve algumas mensagens subliminares como ‘não há derrotas definitivas para o povo’, ‘o povo não pode desanimar’, quando, na verdade, ele estava falando para o povo brasileiro e para aquela situação usando uma linguagem quase cifrada por causa da censura. São coisas que muita gente nem tem conhecimento até por ter um preconceito em relação ao esporte. Existe muito acadêmico que não sabe disso porque não observa outros aspectos.
Antigamente, o mais trivial da cobertura esportiva era mesmo aquela coisa fechada no futebol, no treino. Na época do regime militar, por exemplo, existiram grandes atletas e o Brasil era importante em várias modalidades. No entanto, a cobertura era sempre muito bitolada, muito fechada, cumprindo aquela função de circo, de ópio do povo. Por isso, o jornalismo esportivo recebeu críticas que persistem até hoje. Mas eu acho que ele tem melhorado muito.

Você disse que o jornalismo precisa resolver contradições. Que rumos você imagina que ele irá tomar no futuro, principalmente com a existência das redes sociais, que estão criando uma rapidez na divulgação de informações?
Eu tenho uma tese de efeito dominó. O jornal, cada vez mais vai virar revista. Ele vai virar o que era a revista: análise, textos mais interpretativos, coisas mais em profundidade, cada vez mais colunistas, opinião. Então, o jornal já não vai mais para o factual, porque o factual vai ficar para os meios eletrônicos. Quem deu o furo da morte do Michael Jackson? Foi o Twitter. Não tem como concorrer com isso. A informação é uma coisa que está no ar, ela não é de ninguém. O jornal já não é mais o que era e vai se aproximar da revista. A revista também está se transformando. As revistas, por sua vez, estão cada vez mais próximas dos livros. Então, há um efeito dominó.

De alguma forma essa mudança prejudica a imprensa?
Não, eu acho que tudo se transforma. A gente já deveria ter aprendido isso. Toda vez que apareceram novos veículos, todo mundo decretou a morte do anterior. Quando surgiu a TV, falavam que o rádio morreria porque a imagem viria substituí-lo, mas o rádio se modificou e foi para a prestação de serviços. Tudo aquilo que era do rádio foi mais para a televisão, mas ainda tem quem ouça rádio, principalmente no carro. Investiu-se no FM, buscaram-se outros caminhos. Então, acredito em transformação, não em sobreposição.
A gente simplesmente vai passar a usar esses veículos de outras maneiras e quem faz os veículos, no caso os jornalistas, vai perceber isso e vai ter que se adaptar. Só irão mudar algumas peças. As novas mídias apareceram para agregar, inclusive com vantagens. Existe twitter de gente famosa que fura jornal. As pessoas anunciam as grandes coisas no twitter antes mesmo de qualquer revista ou jornal noticiar o fato. Aliás, os microblogues estão virando fontes para os veículos. Nos assustamos um pouco com essa novidade porque somos as cobaias desse processo. Daqui a 20 anos, ninguém vai se questionar sobre isso. É uma relação mais ou menos como a do meu filho com o controle remoto que é muito melhor do que a minha, porque quando ele nasceu já existia controle remoto.

Crédito:Adriana Vichi


Sobre o recém-lançado “Santos: 100 anos, 100 jogos, 100 ídolos”. Como surgiu a oportunidade para escrevê-lo?
A editora do livro, a Autêntica Editora, que tem o selo Gutemberg, possui um segmento de livros esportivos e livros de história em geral. No centenário do Corinthians, em 2010, eles ganharam o direito de fazer um livro comemorativo. Chegaram até mim já com esse direito adquirido e com a ideia do livro. Me deram total liberdade para fazer um livro do centenário, não pautaram nada. Eu, então, sugeri um livro que acrescentasse algo em relação à produção que já existia. Imaginei contar a história do Corinthians por meio de 100 jogos e 100 jogadores. Tinha a ideia de ser um livro ilustrado nos moldes de um almanaque. Como o Santos completa 100 anos em 2012, eu propus à editora que repetíssemos a fórmula do Corinthians com o Santos; fórmula que, inclusive, pretendo repetir com o Palmeiras, cujo centenário é em 2014. Chamei o Odir Cunha, que é o meu parceiro deste livro, até porque ele é que é o santista. Foi um trabalho muito legal porque, pelo menos até os anos 70, quando os créditos de foto eram livres, eu pude reproduzir muito material do meu arquivo de revistas, de jornais. Então, além de escrever o livro, nesse caso eu também tenho uma participação direta na parte visual que eu imagino que seja também um ponto alto do em termos de história. Eu sempre gostei muito de história, sou um historiador frustrado.

Como você elabora toda essa pesquisa em seus livros? A internet ajuda nesse processo?
O que eu faço muito é comparação. Na verdade, eu acho a internet um excelente meio, mas ela não é um fim em si. Então, existe muita informação desencontrada que eu preciso checar e vou burilando. E algumas outras que eu ainda nem tive como checar porque são únicas até que alguém levante a lebre de que estão erradas. Eu trabalho muito com o meu arquivo também. Eu tenho um arquivo de jornais e revistas bem antigo. As revistas vêm desde 1938. Algumas imagens desse arquivo já são liberadas e eu gosto muito de reproduzi-las porque é uma oportunidade de trazer coisas que as pessoas não viram, coisas que estão esquecidas. As mais recentes, de 1970 até hoje, eu praticamente compro de bancos convencionais, como a editora Abril, Agência Estado., então, é uma mistura das duas coisas. No caso dos jogos, eu fiz reproduções de capas de jornais que são meus. Eu tenho a coleção em papel do jornal Lance! desde 1997, quando foi lançado, e todo dia eu vou atualizando o acervo. Acabou ficando muito mais fácil. Eu escaneei as capas na minha própria casa e depois só pedi autorização para o jornal. Eu nem sei se o próprio Lance! tem esse acervo organizado. Então, a pesquisa que eu realizo é muito em cima do meu arquivo de material de esporte.

Você possui algum projeto em mente para o futuro? Já pensa em lançar algum outro livro?
Existem sempre as empreitadas. A Editora Maquinária, que tem uma série chamada “Os dez mais”, que são perfis dos dez principais jogadores de cada clube, vai iniciar uma nova série com os vinte maiores jogos de cada time. E eu já tenho data marcada para entregar para eles as histórias dos vinte maiores jogos do Corinthians que, na verdade, não vão se restringir às partidas propriamente ditas. Serão perfis dos dias em que as partidas aconteceram. Não vou falar só sobre os 90 minutos. Em 13 de outubro de 1977, por exemplo, quando o Corinthians foi campeão depois de 22 anos, o Brasil ficou sabendo que o general Geisel tinha exonerado o general Frota, ministro do Exército. Esse fato foi fundamental para a abertura política do país, já que o Frota era da linha dura e o Geisel, ao exonerá-lo na véspera daquele jogo, conseguiu implementar todo o processo de abertura política. Então, a ideia é fazer uma contextualização. Mas tem também o “Almanaque do Timão”, que reúne todos os jogos e as biografias dos jogadores do Corinthians, do qual estou devendo uma reedição desde 2005. Eu pretendo imprimir o Almanaque por conta própria. Há também a possibilidade de trabalhar os dados do almanaque como aplicativo, que seria um projeto paralelo, mas tudo isso está correndo junto. Nada tem um prazo muito definido, a não ser o projeto dos vinte jogos, que é um compromisso e possui um contrato assinado. Quando trabalhamos por conta própria existem dois lados: você tem as suas ideias, que você vende, e existem as empreitadas, nas quais as pessoas te procuram perguntando se você quer concretizá-las. O próprio “100 anos, 100 jogos, 100 ídolos” foi assim, porque começou como empreitada, alguém me procurou. Obviamente, esses projetos têm prioridade. O que explica, talvez, a minha demora em refazer o “Almanaque do Timão”, já que não há ninguém me cobrando. 
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