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"Jornalista consegue informações que não chegam para a polícia", diz a veterana repórter Fátima Souza

Por Ana Ignacio/Da Redação | 21/01/2011 16:40
Fazer plantão em delegacia, frequentar o Instituto Médico Legal, entrar em favelas. São algumas das atividades que fazem parte da rotina do jornalista policial. O dia a dia da reportagem é um dos assuntos que Fátima Souza, jornalista policial investigativa há mais de duas décadas, abordará na aula "Zonas de Conflito: o jornalismo policial" no dia 28/01, sexta-feira, como parte das Oficinas IMPRENSA de Jornalismo e Comunicação. 

Fátima realizou diversas coberturas policiais importantes e passou por veículos como Diário de S. Paulo, SBT, Band, Cultura e hoje atua na TV Record. Foi a primeira repórter a denunciar, na década de 1990, a existência do PCC (Primeiro Comando da Capital). Em entrevista à IMPRENSA, a jornalista fala sobre as principais mudanças e dificuldades na área, cobertura da ocupação dos morros do Rio de Janeiro no final de 2010, sensacionalismo e a difícil relação entre jornalismo, polícia e governo. 

Para saber mais sobre essa e outras Oficinas IMPRENSA, clique aqui. Leia os destaques da entrevista de Fátima seguir:

IMPRENSA - Em seus mais de 20 anos de carreira como jornalista policial, quais foram as principais mudanças na área?

Fátima Souza - Quando eu comecei, há mais de 20 anos, não tinha mulheres no jornalismo policial. Fui a primeira, ou uma das primeiras a fazer uma reportagem policial. Hoje está par a par, tem tanto homens quanto mulheres. Outra mudança é que você tinha há 15, 12 anos, repórteres especializados só em polícia e hoje o número é menor - embora você tenha muito jornal que cobre polícia, não tem jornalista especializado nisso. É o jornalismo policial factual. Ele não segue, não acompanha, não investiga os casos, não enche o saco de promotor e delegado. Tem pouco jornalismo policial investigativo. Outra coisa que mudou é que há 20 anos, quando eu ia entrevistar alguém que passou por qualquer caso de violência, as pessoas davam a cara. Hoje todo mundo fala de costas. O cidadão tem medo de alguém ver e voltar pra matar. A sociedade mudou o comportamento. A sociedade tem muito medo dos bandidos e da polícia. Mudamos todos: polícia, jornalistas e sociedade. Infelizmente para pior.

IMPRENSA - Por que houve essa diminuição em uma área que já tinha profissionais especializados?

Fátima - Por um lado as emissoras e empresas não investem mais nesse tipo de reportagem. Fazer uma matéria sobre máfia nacional em 20 dias, por exemplo. Elas não investem mais nisso. É só o factual. Não tem um investimento em cima da informação que pode diferenciar a matéria. O que você acompanha? Casos como Isabela Nardoni, casos em que a mídia percebe uma comoção social em cima do fato e mesmo assim não acompanha direito. O jornalista não sai pra descobrir. Ele vai pra delegacia e espera o delegado falar o que eles descobriram e isso vira a matéria. Acho que é falta de investimento das empresas. Isso tem custo. E de outro lado, nem todo mundo que faz polícia hoje gosta de fazer polícia. E ser jornalista policial e investigativo tem que ter muito tesão, vontade, não ter medo. Tem muito repórter que fala que não entra em favela. Então é gente que está no lugar errado. O programa do Datena deve ter uns dez repórteres e todos são obrigados a fazer isso porque é isso que tem no jornal. Será que todos gostam? Não tem gente da nova geração vindo. No meu entender de jornalismo, o policial investigativo é o único que consegue ajudar a polícia. Não é simplesmente mostrar que morreu, é ajudar a descobrir como, quem, e é tão bom poder ajudar a chegar na resposta... 

IMPRENSA - Como separar o que é trabalho de polícia e o que é apuração e trabalho do jornalista? 

Fátima - É totalmente diferenciado. Começa que temos mais facilidade de conseguir informações. Você chega em um local de uma chacina e o morador fala pra polícia que não viu nada. Para o repórter o cara diz: "Me encontra no boteco aqui do lado que quero te falar um negócio. A Polícia Militar esteve aqui várias vezes, com um carro com a placa coberta". Eles não falam isso pro delegado. Pensam "Ele vai pegar meu nome, meu endereço, os PM vão ver e vão me matar também". Mas pra repórter é diferente. Então não é investigar no lugar da polícia. É que algumas vezes a informação que chega pra gente não chega pra polícia. Ai a gente divulga e a polícia se obriga a ir atrás. Vai ter que investigar, não vai poder ignorar. Não é fazer o trabalho pra eles. É muitas vezes clarear uma coisa que você conseguiu, um documento que alguém achou e não quis entregar pra polícia. 
 
IMPRENSA - E sobre o sensacionalismo, principalmente do jornalismo policial de TV. Você acha que há exagero em alguns casos?

Fátima - Eu sou muito criteriosa em relação a isso. Acho que em alguns momentos isso ocorre. Não concordo com a taxação dessas coisas. Trabalhei no Datena por 13 anos e nunca fiz nada sensacionalista, mentiroso. Respondi a 19 processos e ganhei a todos. É sensacionalismo falar que de dez sequestros em São Paulo,seis são de crianças? O governador me fala que não deveria falar. Por que não? É sensacionalismo dizer que são 20 assassinados por dia em São Paulo? Mas não são? Falam que isso vai assustar as pessoas. O governador deixa morto e eu não posso deixar assustado? Quem critica esses programas é sempre governo. É tudo uma questão de visão. É raro você ouvir a população falar de exagero. O que acham que é sensacionalismo é só atualização do caso. Quando o PCC fez os ataques em SP criticaram muito a gente, falaram que ficamos mostrando todos os ataques. Meteram fogo no ônibus e entramos ao vivo. Não botamos fogo. Não é mentira. Falam que a mídia exagera. Exagero é o crime fazer 500 ataques na cidade e não a gente contar quantos foram. Essa briga é eterna e acho que vai durar pra sempre.
 
IMPRENSA - Como você avalia as críticas sobre a cobertura da mídia ter atrapalhado as ações policiais nas ocupações recentes aos morros no Rio de Janeiro? 

Fátima - Acho que o que atrapalhou foi a polícia ser conivente com os traficantes todos esses anos. A polícia ser corrupta, ter traficante. Nada atrapalhou mais o Rio de Janeiro do que a participação da polícia civil e militar no crime organizado. Como as emissoras sabiam que eles iam subir ali, naquela hora? Quem você acha que ligou pros repórteres? Eles foram avisados pela polícia pra mostrar a ocupação. Como se avisassem de uma coletiva. Se a PM liga avisando que vai ter uma operação naquele horário, todo mundo vai lá mostrar. Não foi fonte de dentro. Todo mundo sabia. Se fosse uma fonte teria uma emissora só. E tava todo mundo lá. Quatro helicópteros de TV e todo mundo em baixo. Todo mundo tinha fonte? Até os argentinos tinham fonte? Agora, o coronel veio vomitando na gente depois e falou que a maioria fugiu. Se não tivesse fugido, teria elogiado nosso trabalho. Como ficou um vexame, ele achou ruim. É que eles preparam a ocupação, planejaram e acharam que iam prender um monte de gente. Mostramos o vexame de quem queria prender 50 e prendeu dois. Acharam ruim. Voltamos pra guerra entre governo, jornalista e polícia.       
              
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