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Para Gustavo Cerbasi, escolha de Henrique Meirelles foi primeira ação de responsabilidade de Lula
Em entrevista exclusiva, o especialista em Finanças comenta o mercado de ações e a cobertura da imprensa sobre o assunto
Por Nathália Duarte/ Redação Portal IMPRENSA
Mestre em administração e Finanças pela FEA/USP, em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com especialização em Finanças pela Stern School of Business e pela Fundação Instituto de Administração (FIA), Gustavo Cerbasi é professor em cursos de pós-graduação e MBAs, sócio-diretor da Cerbasi & Associados Planejamento Financeiro e, não a toa, colunista da revista Você S/A, do jornal Gazeta Mercantil, da Rádio Transamérica e colaborador de diversos outros veículos de mídia impressa, televisiva e internet.
Em entrevista exclusiva ao Portal IMPRENSA, o autor dos livros "Dinheiro - os segredos de quem tem", "Casais inteligentes enriquecem juntos" e "Filhos inteligentes enriquecem sozinhos" comenta a cobertura da imprensa sobre o mercado financeiro e fala das perspectivas para o país em 2008.
IMPRENSA - Como comentarista em vários veículos, em diferentes mídias, como você avalia a cobertura da imprensa sobre o mercado financeiro?
Gustavo Cerbasi - Acho que boa parte do movimento financeiro funciona em função da imprensa e esse "boom" de informações sobre o mercado financeiro só funciona se as pessoas adotarem uma postura crítica diante do que está sendo dito. E acredito que essa postura crítica é o que pode favorecer o trabalho de consultores e especialistas.
Vejo que a imprensa hoje acaba assumindo um papel de educação, de descobrir um território muito timidamente coberto pelas escolas, que deveriam ter essa função. Por outro lado, são divulgadas muitas informações e o mercado de ações acaba sendo tratado como uma febre, com um certo tom de sensacionalismo que acaba, inclusive, assustando.
Quanto à exposição de serviços e os perigos do mercado financeiro, acho que a imprensa tem cumprido bem com seu papel, mas tratar de investimento exige um cuidado especial porque aponta oportunidades para as pessoas e o papel especulativo pode ser perigoso. Uma informação equivocada pode encadear comportamentos e um grau de insatisfação.
IMPRENSA - Recentemente a Comissão de Valores Mobiliários propôs uma intervenção na atuação dos jornalistas responsáveis pela cobertura econômica. Como você vê essa ação?
Cerbasi - Eu li matérias sobre o assunto, mas não acompanhei o caso de perto. Ainda assim, acho que essa cobrança já era esperada. Eu mesmo tenho que prestar contas para a CVM. Eles me questionam sobre onde e em que eu fundamento meus comentários.
Acredito que, na mídia impressa, os equívocos sejam fruto de informações mal interpretadas pelos jornalistas, já que nem sempre esse jornalista tem o preparo adequado para tratar do assunto com propriedade. O fato é que não se pode culpar simplesmente o jornalista, a interpretação às vezes errada pode ter sido gerada por uma informação mal explicada por parte do entrevistado, no caso.
IMPRENSA - Como você avalia o otimismo com que o Ministro da Fazenda Guido Mantega trata a atual situação da economia brasileira ?
Cerbasi - Acho um pouco exagerado esse otimismo. Sei que esse é o papel dele, assim como estão fazendo outros políticos e economistas e o próprio presidente Lula. Há a tentativa de construir um otimismo. Mas ainda acho que, como ministro, ele deveria ser mais cauteloso porque qualquer exagero nesse sentido pode levar ao descrédito.
IMPRENSA - A linguagem com que notícias de economia e finanças são tratadas, o conhecido "economês", está muito distante da grande massa brasileira. Você acha possível simplificar essa linguagem?
Cerbasi - É possível sim e acho que essa é a maior qualidade do meu trabalho enquanto autor. Minha formação não foi logo de cara financeira, então acabei aprendendo que o que falta é a empatia. Acho que o economista ou administrador que está dando uma entrevista, por exemplo, deve se colocar no lugar de quem vai receber a informação. E esse problema com a linguagem não é exclusivo da economia. O direito também tem esse problema e se torna difícil digerir alguns termos.
Acho que os economistas devem se preocupar mais em descer de seu pedestal e usar uma linguagem adequada à compreensão. Normalmente é preciso adotar o uso de exemplos, que funcionam como uma espécie de tradução. Contar histórias em vez de teorias.
A idéia dos meus livros era torná-los úteis tanto para um público simples, de baixa renda, quanto para quem tem um alto nível de educação financeira. Para isso, tive que apostar na didática sem banalizar o conteúdo. Acho que o especialista deve fundamentar menos e esclarecer mais, propor soluções práticas.
IMPRENSA - Henrique Meirelles foi considerado recentemente o "presidente do Banco Central do ano". O que você acha dessa escolha?
Cerbasi - Acho que a escolha foi ótima. É claro que para considerá-lo o melhor do mundo eu precisaria conhecer todos os outros, mas acho que o Meirelles tem muitos méritos no trabalho econômico e no desenvolvimento que se deu no Brasil.
Para mim, a escolha de Meirelles para o cargo no início do mandato de Lula foi a primeira ação de responsabilidade e eficiente porque, assim que Lula assumiu, todos temiam pelas medidas de esquerda que poderiam ser tomadas. E o Meirelles correspondeu às expectativas e respeitou a ideologia do governo. Acho que seu nome vai ficar marcado pela grande importância que teve ao país.
IMPRENSA - Qual a sua avaliação sobre 2007 e as perspectivas para 2008?
Cerbasi - Como avaliação, acho que 2007 foi um ano em que aprendemos muito. Felizmente a euforia nos trouxe crises que nos mostraram o que é o risco, a volatilidade, a renda variável. Foi importante ver a possibilidade de oscilações e acho que isso nos inspira para um 2008 positivo.
Não acho que os indicativos de maneira geral ou PIB de 2008 serão radiantes, mas a possibilidade do investment grade no Brasil deve representar um divisor de águas.
Acho que os investimentos hoje assumiram nova cara, a idéia de que era fácil ganhar dinheiro acabou e a bolsa hoje está no seu preço, portanto, será preciso que as pessoas elaborem seu Business Plan para preparar suas finanças para o próximo ano.
Acho que o divisor de águas que citei há pouco estará principalmente relacionado à divisão que, até então, era representada entre quem tem e quem não tem dinheiro, e que a partir de agora será entre quem tem e quem não tem o conhecimento sobre o mercado.
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