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"A poesia brasileira está mergulhada numa densa escuridão", afirma o poeta Álvaro Alves de Faria
Por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA
Álvaro Alves de Faria, o Poeta, é um dos nomes mais representativos da geração de poetas dos anos 60. Jornalista, escritor e crítico literário, sua trajetória envolve relações com ícones como Lygia Fagundes Telles, Paulo Bonfim e Hilda Hilst. Amigo íntimo de Jorge Amado e Rachel de Queirós, sua bagagem cultural o permite fazer críticas ácidas sobre a produção literária brasileira, "jogo de favores entre algumas pessoas da literatura que se dizem escritores, com ajuda dos suplementos".
Entrevistar o escritor argentino Jorge Luis Borges foi, talvez, a experiência mais marcante de sua vida. A conversa com "um homem sozinho, mergulhado na solidão terrível, pelo seu rancor, pelo seu desprezo ao mundo e às pessoas", ficou guardada por 25 anos - sendo publicada somente em 2001 - "pelo o que ele falava da junta militar que governava a Argentina na época, que merecia todos seus elogios. Um prato cheio para os militares brasileiros que estavam no poder no Brasil".
Ganhador do prêmio Jabuti de Imprensa em 1976 e 1983 do prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) em 1988 e 1989, o Poeta foi preso cinco vezes em nove recitais que realizou no Viaduto do Chá nos anos 60, logo no início da ditadura.
Em entrevista ao Portal IMPRENSA, ele explica porque, em suas palavras, a "poesia brasileira está mergulhada numa densa escuridão".
IMPRENSA - Você é apontado como um dos únicos críticos da crítica cultural brasileira. Que vícios ela tem? Álvaro Alves de Faria - Não sou o único. É que as outras pessoas têm receio de dizer o que pensam do jornalismo cultural brasileiro, especialmente em São Paulo e Rio de Janeiro. Descontando as exceções, os críticos são mentirosos. Escondem a notícia verdadeira que diz respeito à literatura e vivem de fazer favores mútuos uns aos outros, numa prática vergonhosa desse chamado jornalismo cultural. O que ocorre atualmente é que só tem vez aquela mesma turminha de sempre, esses caras que de repente tomaram o poder nos suplementos culturais e nas universidades. Fora desse círculo, não entra mais ninguém.
IMPRENSA - E por que o jornalismo cultural segue esse caminho? Faria - O Ferreira Gullar me disse um dia algo que guardei: "Estou cansado de ver gente escrever sobre Baudelaire sem num ter lido um verso de Baudelaire". É isso que ocorre. Jornalismo cultural, para mim, ressalvando sempre as exceções que existem, tornou-se um jogo de favores entre algumas pessoas da literatura que se dizem escritores, com ajuda dos suplementos.
IMPRENSA - Como você enxerga a produção literária brasileira hoje? Faria - Ressalvando sempre as exceções, a produção é lastimável. Falta seriedade. Falta crítica séria. Falta crítica honesta. Falta suplemento cultural confiável. Isto aqui é um deserto de idéias sérias. Isto aqui é o vazio absoluto. Vamos repetir, é sempre preciso, que há exceções. A literatura é coisa séria, é a identidade de um país.
IMPRENSA - O prêmio Nobel costuma associar o homem à obra. Ou seja, os premiados devem ter uma militância libertária análoga ao que escrevem. Mas escritores como, por exemplo, Balzac, Nelson Rodrigues e Jorge Luis Borges eram conservadores de carteirinha. O próprio Karl Marx defendia que a obra é uma coisa e o homem é outra. Qual a sua postura: você defende como o Nobel que o autor deve ser igual a sua obra ou não? Faria - Particularmente, não separo o homem de sua obra. Para mim, não tem essa de o homem (escritor) ser uma coisa e a obra outra. Não. Para mim isso não existe.
IMPRENSA - Você esteve com o escritor argentino Jorge Luis Borges, em seu apartamento na Calle Maipu em Buenos Aires. Como era Borges de perto? Faria - Fiz com Borges a entrevista de minha vida. E olha que eu já entrevistei praticamente todos os grandes escritores e escritoras brasileiras. Fui a Buenos Aires em setembro de 1976. Achei que seria recebido no máximo por 30 ou 40 minutos. No primeiro dia, fiquei com ele seis horas. Ele pediu-me para voltar no dia seguinte, para mais seis horas de conversa. Vi um homem sozinho, mergulhado na solidão terrível. Mas um ser humano que me deixou amargurado. Pelo seu rancor, pelo seu desprezo ao mundo e às pessoas. Guardei essa entrevista por 25 anos. Até pelo o que ele falava da junta militar que governava a Argentina na época, que merecia todos seus elogios. Um prato cheio para os militares brasileiros que estavam no poder no Brasil. A entrevista foi transformada em livro em 2001, publicado pela Editora Escrituras. Nesse tempo eu era crítico de Poesia do Jornal da Tarde, Caderno de Sábado. Fiz 17 fotografias de Borges na sua poltrona preferida. Tomei chá com Borges duas vezes, em duas tardes de setembro de 1976.
IMPRENSA - Você priva da amizade dos maiores escritores do Brasil, como Jorge Amado e outros grandes escritores brasileiros. Conte um pouco dessas amizades. Faria - Sou amigo de quase todos os grandes escritores deste país. Amigo mesmo. Falo, no caso, apenas de Jorge Amado. Sempre mereci de Jorge Amado uma atenção especial. Isso também ocorre, por exemplo, com a Lygia Fagundes Telles, com o Paulo Bomfim, a primeira pessoa que escreveu sobre mim quando eu era ainda adolescente. Era assim com a Rachel de Queirós. Com a minha querida Hilda Hilst...E todos os poetas da Geração 60 de poetas de São Paulo, à qual pertenço. Formamos um grupo decente de poetas corretos.
IMPRENSA - De seis anos pra cá a sua obra começou a ser valorizada na Europa em geral e em Portugal em particular. Como são essas suas andanças? Faria - Deixei de ser poeta brasileiro. Mas é bom ressaltar que isso não tem significado nenhum. Tenho 19 leitores em Portugal. Isso me basta. Os meus últimos seis livros de poesia foram publicados em Portugal, sem contar o grande número de antologias de poesia publicadas lá com poemas meus. Em 2007, foi realizado, em Salamanca, na Espanha, o Décimo Encontro de Poetas Iberoamericanos, nesse ano dedicado ao Brasil. Fui o poeta brasileiro homenageado no evento, com a publicação de uma belíssima antologia com poemas selecionados e traduzidos pelo poeta espanhol Alfredo Perez Alencart, da Faculdade de Direito de Salamanca. Logo a seguir o encontro de Salamanca, eu segui para Coimbra, onde lancei o livro "Inês", na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, onde Inês de Castro foi morta. Muitas das coisas que eu disse no meu discurso no Salão de Recepções do Ayuntamiente de Salamanca, onde o evento foi realizado, viraram notícia em jornais de vários países da Europa e mesmo aqui na América Latina. Não são notícias de uma página inteira. Mas são notas sobre a palavra de um poeta brasileiro sobre seu país, desde as questões políticas. Soube agora, há alguns dias, que uma doutoranda na Universidade de Coimbra está escrevendo sobre "O sermão do Viaduto", os poemas que eu lia no Viaduto do Chá nos anos 60, logo no início da ditadura. Fui preso cinco vezes em nove recitais que realizei no local.
IMPRENSA - Por que você tem se considera um ex-poeta? Faria - Sim, eu me considero um ex-poeta, diante do que ocorre no país do desalento. Ex-poeta com muita honra. Um ex-poeta que quer muita distância da paisagem atual. Meus seis últimos livros de poesia foram publicados em Portugal. Em 2007 saiu aqui "Babel". Quem ler esse livro com alguma atenção verá minha luta contra a própria poesia. Pelo menos a poesia que está sendo produzida por aí por alguns facínoras. |