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"O importante é que a informação flua livremente, sem censura e manipulações", diz o jornalista Osvaldo Martins
Por Thiago Rosa/Redação Portal IMPRENSA
"A liberdade de imprensa é a mãe de todas as liberdades e o direito a informação, o pai de todos os direitos da cidadania". Esta foi a frase que seguiu Osvaldo Martins durante toda a trajetória profissional. Santista de origem, mangueirense de coração e jornalista por ocasião, como ele mesmo diz, tornou-se, ao longo de quatro décadas de profissão figura de cabeceira na imprensa brasileira.
Em 23 anos de redação, Martins foi repórter, editor e chefe de redação de veículos como A Tribuna, O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. No meio político, coordenou a campanha de Mário Covas ao governo de São Paulo e foi secretário de comunicação nas gestões Covas e Alckmin. Com quarenta anos dedicados ao jornalismo, nas palavras de seu filho, Alexandre, Oswaldo não possui currículo profissional, mas sim história de vida.
Ainda no meio jornalístico, Martins foi membro do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta e ombudsman da TV Cultura, emissora vinculada ao governo de São Paulo (SP). De sua "história de vida" além de pautas, matérias e eventos, também levou outro legado: as amizades com personagens célebres da história nacional. Mário Covas, com quem trabalhou, e Tom Jobim, vínculo que perdurou em homenagem ao nome de batismo do neto, de 10 anos, também foram conquistas do jornalismo.
Na sede da MidiaB, empresa de auditoria de imagem, embrião do Instituto Brasileiro de Estudos em Comunicação (IBEC), criado em 1987, Martins, hoje aos 68 anos, dispensa parte de sua rotina para falar do que mais sabe: jornalismo e imprensa.
Portal IMPRENSA - Quais foram os maiores desafios enfrentados nos veículos em que trabalhou? Teve algum caso marcante em que teve problemas no exercício da profissão? Osvaldo Martins - O grande problema do jornalismo é a imprensa. O diabo é que um não existe sem a outra. A imprensa é a patroa do jornalismo. Embora funcionem juntos, jornalismo e imprensa são duas coisas distintas. A imprensa é um negócio, tem clientes e, como empresa, tem de dar lucro. Já o jornalismo não tem clientes, tem fontes; na empresa, só dá despesa. Diariamente, em todas as redações, ocorrem embates entre os interesses da imprensa e os deveres do jornalismo. Os interesses da imprensa prevalecem sempre.
IMPRENSA - Como foi a experiência de conviver diariamente ao lado de Mário Covas, nas campanhas eleitorais ao governo do estado de São Paulo em 1994 e 1998? Na sua opinião, no que os jornalistas podem auxiliar nas ações de marketing de candidatos e governistas? Martins - Fui amigo do Mário durante 40 anos. Ele político, eu jornalista. Acompanhei de perto toda a sua trajetória - a de um homem sério, democrata, coerente, trabalhador e muito preparado. Para mim foi um longo e proveitoso aprendizado. Com ele aprendi mais sobre ética do que em todas as redações por que passei. Os jornalistas, por sua formação generalista, estão mais preparados para o marketing político que os publicitários, que não sabem, por exemplo, lidar com a imprensa.
IMPRENSA - Na Secretaria de Comunicação Estadual (1999-2001), quais foram os maiores aprendizados adquiridos no cargo? Como era a rotina? Martins - Como secretário de comunicação tive uma experiência profissional muito interessante. Tornei-me um servidor público, na melhor acepção do termo. Trabalhava 14, 16 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados e ganhava uma miséria. Saí do governo cheio de dívidas, mas valeu a pena.
IMPRENSA - Você é da corrente dos profissionais que desvinculam assessoria de imprensa do jornalismo? Na sua avaliação, no que difere os assessores dos profissionais de redação? Martins - É possível fazer bom jornalismo nas assessorias de imprensa. Até porque as redações não têm estrutura suficiente para produzir o volume de informações de que necessitam. As assessorias contribuem com mais de 30% de tudo que sai publicado em jornais, revistas, etc...
IMPRENSA - Na sua opinião, o que o cargo de ombudsman pode auxiliar na relação entre público e empresas de mídia? Martins - O ombudsman pode dar uma contribuição importante, na medida em que funciona como elo entre leitor e veículo, mas a imprensa não gosta nem um pouco da figura do ombudsman, por uma razão muito simples: a imprensa detesta ser criticada.
IMPRENSA - Recentemente, o governo de São Paulo afirmou que cessará, gradativamente, as verbas da Fundação Padre Anchieta. Na sua opinião , qual a perspectiva para as TVs públicas? Martins - No caso da TV Cultura me parece que estão todos errados. O governo do estado, por não cumprir como devia o seu papel de sponser da TV pública. E a Cultura, por não saber gastar com eficiência a verba que recebe. O conceito de TV pública só se afirma se houver contribuições de governos e do setor privado. O melhor exemplo é o da BBC, que é sustentada pelo povo britânico.
IMPRENSA - Em 1987, você fundou o Instituto Brasileiro de Estudos de Comunicação, com a criação de um conceito hoje difundido por várias empresas do setor. Qual a importância da auditoria de imagem para as instituições públicas e privadas? Martins - A auditoria de imagem foi criada em 1987, como alternativa a tal de "valoração", que é um equívoco. Não se mede retorno de imagem por valores de tabela de publicidade, pois anúncio e notícia são coisas bem diferentes. Tanto no setor público, como no privado, o papel da comunicação é importantíssimo e deve ser conduzido por profissionais do ramo, especialmente por jornalistas.
IMPRENSA - Baseado no critério de auditoria de imagem (metodologia que leva em conta os pontos positivos e negativos nas publicações), como a mídia vê a própria imprensa? Quais os desafios para o futuro? Martins - A imprensa se vê como algo imprescindível nas sociedade democráticas, o que é verdade. A liberdade de expressão é a mãe de todas as liberdades e o direito à informação, o pai de todos os direitos da cidadania. O grande desafio da imprensa nas próximas décadas será a sobrevivência do meio impresso, cada vez mais ameaçado pelo meio eletrônico. Mas o importante mesmo é que a informação flua livremente, sem censura e manipulações.
IMPRENSA - Qual sua posição em relação à exigência do diploma ao exercício do jornalismo? Martins - Acho um exagero o curso de graduação de quatro anos para jornalismo. Deveria ser um curso de pós-graduação de, no máximo, dois semestres, com ênfase em ética e técnica. E um graduado em qualquer curso superior (medicina, engenharia, direito) deveria ser apto a fazer a pós em jornalismo. |