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"Militares conversavam com o repórter, não com o veículo de comunicação", diz Dalton Moreira
Por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA
Jornalista há 30 anos, Dalton Moreira conta que começou na profissão "por acaso". Acaso este que lhe rendeu inúmeros "furos" durante sua carreira, como a divulgação de que os militares estariam preparando a Serra do Cachimbo, entre o Pará e o Mato Grosso, para fazer testes nucleares, e uma entrevista com o brigadeiro Hugo Piva relatando como ele ajudou Saddam Hussein, ex-presidente do Iraque, a fazer mísseis que poderiam atingir Israel.
Um dos únicos profissionais a ser recebido pelos militares nas décadas de 80 e 90, Moreira explica que a relação com eles era complicada, por todos eram "extremamente desconfiados". Segundo ele, o off era uma situação normal. "Eles conversavam com o repórter, e não com o veículo de comunicação".
O repórter mantém atualmente um jornal em Taubaté, interior de São Paulo, chamado In OFF, e está prestes a terminar um livro sobre a Serra do Cachimbo. "Um bom depoimento jornalístico é ótimo pois quem vivenciou o fato conhece como ninguém o assunto", afirma.
Portal IMPRENSA - Conte um pouco de sua trajetória profissional e como você começou no jornalismo. Dalton Moreira - Sou jornalista por acidente, por acaso. Comecei em setembro de 1976 como revisor no jornal A Tribuna (Taubaté). Depois fui para outras publicações. Em 1978 estive no jornal Agora (regional) e, em 1979, no ValeParaibano. Em 1983 comecei na Folha de S.Paulo como correspondente em Taubaté, onde fiz a capa da Ilustrada com as últimas cartas inéditas de Monteiro Lobato. Posteriormente fui montar a sucursal da Folha em São José dos Campos. Depois fui para Brasília e voltei para São Paulo. Sempre cobrindo área militar e Polícia Federal. Depois que saí da Folha, logo após a cobertura do afundamento do Bateau Mouche (em 89) fui para O Globo, rádio Jovem Pan, Correio Popular, Veja, Gazeta do Paraná. São mais de 30 anos de profissão. Atualmente tenho um jornal: o In OFF. Meu grande sonho era ser escritor. Não dava. Virei repórter.
IMPRENSA - Você está escrevendo um livro sobre o sua reportagem na Folha de S.Paulo sobre a Serra do Cachimbo. Conte a história e fale um pouco sobre a obra. Moreira - O título provisório é "A História Secreta da Bomba Nuclear Brasileira". No dia 8 de agosto de 1986, a Folha estampava a seguinte manchete: "Brasil prepara local de teste nuclear". Na história do jornal foi seu único furo de repercussão internacional. Nunca ninguém soube quem foi o responsável pelo levantamento da reportagem que; somente o diretor de redação na época, o Otávio Frias Filho, e o publisher Otavio Frias de Oliveira tinham ciência. Acontece que houve - pro razões de segurança - um acordo para que o nome do repórter fosse preservado. Esse segredo estava sendo mantido até hoje, quando resolvi contar para todos os fatos que nunca foram revelados pelo jornal durante a série de reportagens publicadas.
IMPRENSA - E por que você decidiu contar que você foi o responsável pela reportagem? Moreira - Muitos vão se questionar porque somente agora. Um bom depoimento jornalístico é ótimo pois quem vivenciou o fato conhece como ninguém o assunto. Isso que estou falando surgiu de uma idéia do jornalista Ricardo Júlio num almoço que tivemos. Ele perguntou: "Por que você não escreve um livro sobre Cachimbo? Isso vai ser bom para para os jornalistas mais jovens e também para que saibam quem é você. É história quer você queira ou não". Comecei a fuçar meus arquivos e a digitar tudo que vinha, aleatoriamente. Seria leviano se não o fizesse e em nada contribuiria para o jornalismo investigativo.
IMPRENSA - Você como repórter especial da Folha nos anos 80 e 90 era um dos poucos jornalistas recebido por militares, num período em que a sombra da ditadura ainda era muito presente. Como era ter essa relação com eles? Moreira - Sim. Por todos. Até o general Octávio Aguiar de Medeiros do então SNI (governo Sarney). Uma relação complicada. São extremamente desconfiados. Mas diferem dos políticos em tudo. Conversam com o repórter e não com o veículo de comunicação. O off é situação normal.
IMPRENSA - Você começou sua carreira em São José dos Campos e agora retorna para o interior do estado. Qual a diferença de se fazer jornalismo nas grandes capitais e no interior? Como é lidar com fontes e imparcialidade em um lugar pequeno? Moreira - O interior é horrível. Não respeitam o profissional, e as fontes em geral não são confiáveis. Não aconselho ninguém a trabalhar por aqui.
IMPRENSA - Como você avalia a situação do jornalismo investigativo no Brasil hoje? Moreira - Não dá para avaliar legal. Acabou. Eu fazia muito isso. Hoje não temos mais espaço. A focaiada emburrecida é mais útil. Tenho muitas histórias sobre indústrias bélicas que hoje morreram. |