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Publicado em: 04/03/2009 19:02
"A imprensa sul-americana vive censura comercial", afirma o jornalista peruano Rafael Roncagliolo

Por Luiz Gustavo Pacete/Redação Revista IMPRENSA

A América Latina tem em sua história grandes exemplos de governos caudilhistas e autoritários, que por muito tempo marcaram a região por censuras e torturas, tendo como principal objetivo o poder político. Nomes como Pinochet, Fujimori e Solano sempre foram citados quando o tema foi ditadura. E, em um ambiente tão complexo e hostil, a imprensa sempre teve papel relevante. Atualmente, alguns países vivem uma democracia marcada pelo aumento de poderes políticos dos governantes, como é o caso da Venezuela, por meio de Hugo Chavez; Bolívia, com Evo Morales, e Equador, com Rafael Correa.

Divulgação
Rafael Roncagliolo
A mesma imprensa que sofreu sanções políticas no passado, agora vive uma censura comercial. Os censores deixam de ser os membros do governo para virarem agentes do mercado de consumo. Este novo cenário da imprensa sul-americana é retratado pelo jornalista e sociólogo peruano Rafael Roncagliolo, que fala sobre a liberdade de imprensa sul-americana, do tratamento do governo Hugo Chávez à imprensa da Venezuela e do trabalho realizado pelo IDEA (Institute for Democracy and Electoral Assistence).

Rafael Roncagliolo de Orbegoso é sociólogo e jornalista peruano. Dirigiu grandes grupos de comunicação de rádio, televisão e impressos. Já presidiu a Associação Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC). Prestou consultorias para o Instituto Interamericano de Direitos Humanos da UNESCO e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Leciona na pós-graduação das universidades de Lima e foi professor visitante das universidades de Québec, Ibero-americana do México e Pontifícia do Equador. Atualmente, dirige o escritório para os Países Andinos da ONG internacional IDEA (Institute for Democracy and Electoral Assistence).

IMPRENSA - Qual o cenário da imprensa sul-americana atualmente?
Roncagliolo -
A imprensa na América do Sul não vive uma inter-relação. A troca de informações pelos meios sul-americanos quase não existe e tampouco se influenciam. Temos uma imprensa deslocada e regionalizada, o que representa perda de força.

IMPRENSA - E em relação à liberdade de imprensa?
Roncagliolo -
A liberdade de imprensa na América do Sul hoje é definida por níveis e está diretamente ligada aos seus contextos regionais. Não existe liberdade de imprensa completa. Acredito que, de acordo com seus países e suas realidades políticas, elas são maiores ou menores, entretanto, historicamente, vivemos três censuras: religiosa, política e comercial, a última que é encabeçada pelos grandes grupos empresariais que compram mais do que espaço publicitário, compram a liberdade de muitos meios, limitando-os a retratar aquilo que for de interesse comercial e que não vá contra os princípios empresariais. Isso é uma forma de censura.

IMPRENSA - Comparada a outras regiões, como a América do Sul está colocada em relação à censura?
Roncagliolo -
Há países em que a liberdade de imprensa é mais efetiva que em outros. Não posso dizer que haja liberdade de imprensa em Cuba. Já no Chile, por exemplo, toda a imprensa está concentrada nas mãos do mesmo setor econômico, o que dificulta a formação de um conteúdo imparcial. Em outros países, muitas mídias estão sendo adquiridas por grandes conglomerados empresariais.

IMPRENSA - Qual sua opinião sobre o tratamento de Hugo Chávez à imprensa?
Roncagliolo -
O caso da Venezuela é um exemplo de país em que os canais de televisão passaram a fazer oposição ao governo, o que virou um abuso tremendo. Eu não critico a não renovação da licença da RCTV (Rádio Caracas Televisión), por que isso é um dos direitos fundamentais de qualquer país, as concessões não são eternas. É claro que não podemos omitir que Chávez o fez por questões políticas, mas é um direito de um Estado, já que os meios não são propriedade privada, mas utilizam o espaço público. Na Europa, Canadá e Estados Unidos são realizadas assembléias públicas quanto à renovação de concessões.

IMPRENSA - O que é o IDEA (Institute for Democracy and Electoral Assistence) e qual o trabalho que o senhor desenvolve lá?
Roncagliolo -
O IDEA é uma instituição intergovernamental fundada em 1995 com mandato específico de apoiar os processos democráticos. Assim como existe a FAO para a agricultura, a OMS para a saúde e a UNESCO para a educação, este é um instituto que foi criado por 26 países para apoiar os esforços de fortalecimento da democracia. Trabalhamos e apoiamos condições de diálogo em cada país para fortalecer a democracia. Eu presido o IDEA para os países andinos (Chile, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela).
 



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