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"Você tem que saber a hora de parar de fotografar", diz Manoel Nascimento
Por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA
A seção "Ponto de Vista" desta semana traz o fotojornalista e Mestre em Semiótica Manoel Nascimento, que relata a IMPRENSA seus anos de trabalho no Diário de S.Paulo e as diferenças observadas na rotina do trabalho de rua para o acadêmico.
Para Nascimento, natural da cidade de Apiaí, localizada na região do Vale do Ribeira, o mundo da fotografia revelou-se quando, aos 14 anos, descobriu que sofria de miopia. A doença serviu para valorizar o modo como ele via o mundo. Seu esforço para distinguir cores e gravar rostos e cenas desenvolveu uma sensibilidade incomum. "Eu via as coisas com mais intensidade", declara.
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Mesmo formado em produção editorial, não demorou para que a fotografia tomasse conta da vida de Manoel. Quando terminou a faculdade já fotografava com confiança. A Rede A de Jornais o chamou para trabalhar e lá ficou por dois anos. Passou pela IstoÉ Gente, fez algumas pautas para a revista CARAS, mas sua consolidação como profissional de fotografia deu-se no antigo Diário Popular, que desde 2002, passou a se chamar Diário de S.Paulo. "Lá eu desenvolvi minha parte técnica".
Com muito bom humor, Manoel relata o tempo em que morava na Haddock Lobo com a Oscar Freire e, segundo ele, sua pauta estava no sacolão em frente a sua casa. "Eu descia e ia fotografar artista fazendo compra (...) naquela época, os jardins estavam na moda, era fácil fazer uma boa foto". "Fotografava de tudo: de jogador de futebol ao Clodovil comprando uma caneta".
Sobre ética no jornalismo, Nascimento salienta: "em tudo existe ética. É como um contrato social, e se você não conhece essa lei você não consegue sobreviver". Para ele, o feeling da fotografia é mais do que inspiração; funciona como um sensor que avisa em qual momento o seu trabalho já não é bem-vindo. "Você tem que saber a hora de parar de fotografar. Principalmente em áreas hostis". Nascimento salienta que por ter começado com 28 anos, já tinha desenvolvido um certo "bom-senso" sobre o que é permitido no fotojornalismo. "Eu não fui direto pras ruas, e isso me ajudou muito".
A respeito de sua carreira como fotojornalista, Manoel diz que gostava do que fazia, mas algumas vezes sentia que, talvez, faria sua última foto. Segundo ele, não por medo, mas pela circunstância. "Uma vez fui recebido à bala e aí pensei: ah, agora morri. Por sorte o motorista do Diário [de S.Paulo] era muito bom e conseguiu escapar".
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No entanto, uma cena, assim como o cansaço da "correria" das ruas, o motivou a buscar alternativas em sua carreira. "Vi um cara morrer com um tiro, ali na 24 de maio. Aquilo me marcou muito. Eu lembro do momento do disparo, do cara caindo e depois o vi morto. Só que o rosto do bandido eu não consigo me lembrar de jeito nenhum".
"Isso [o feeling] que eu tento ensinar para os alunos", diz Nascimento à respeito de saber como atuar em determinada situação.
Quando questionado sobre a banalização da fotografia, em razão do advento das máquinas digitais, Manoel ressalta que os profissionais que foram demitidos dos jornais acabaram migrando para as assessorias. "Tem muita gente fazendo foto de desfile, de coisas que ainda precisam de um olhar profissional. Não adianta, o profissionalismo não vai sumir".
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Ele relata também que as universidades necessitam de profissionais com experiência de rua e isso consegue balancear a diminuição dos postos de trabalho nas redações. "Algumas coisas a parte técnica não consegue explicar. Só quem batalhou nas ruas tem como passar aspectos importantes sobre o fotojornalismo".
Apesar de sua bem-sucedida carreira como fotojornalista, Nascimento, assim como muitos profissionais do meio, migrou para a universidade. Sua carreira acadêmica iniciou-se na Universidade Metodista. Após alguns anos, foi convidado para trabalhar na Anhembi Morumbi e na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Nascimento desenvolve também, em parceria com a Fapesp (Fundação de Pesquisa e Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), projetos de registros de culturas desconhecidas e de regiões remotas do país. Atualmente, ele se dedica a dois projetos: Projeto de registro da produção de cerâmica do alto Vale do Ribeira - SP e Os Registros do parque estadual do alto Vale do Ribeira - núcleo de caboclos.
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Sobre suas projeções, Manoel Nascimento reafirma seu desejo de produzir trabalhos em parceria com a Fapesp e de dar aulas em universidades. No entanto, quando perguntado sobre seu futuro no fotojornalismo, Nascimento é categórico: "eu ainda não saí das ruas, nem pretendo sair". Ele ainda trabalha com freelancer para alguns veículos. |