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TELEVISÃO: PALAVRÓRIO SEM CARTILHA
Redação Revista IMPRENSA
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A
seguir, a íntegra do bate-papo entre Flávia Boggio, Paulo
César Peréio e José Mojica Marins que rolou numa noite de abril
de 2009 por intermédio da revista IMPRENSA. O plano era colocar para debater
três entrevistadores que não seguem a cartilha tradicional do jornalismo.
Até porque nenhum deles é jornalista, mas com muita criatividade
e bom humor, destacaram-se na televisão brasileira com seus programas e
personas. Flávia é a roteirista que ajuda a dar vida, ao
lado dos desenhistas Pavão e Thiago Martins, da personagem Funérea,
que entrevista gente de verdade na MTV. Mojica é o criador do famoso apresentador
de "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", colega de emissora
do ator Peréio, que conduz seu cerebral "Sem Frescura" no Canal Brasil.
A matéria editada e com outras fotos está na edição
246 da revista. A conversa aconteceu no Bar Brahma, no centro de São Paulo,
às vésperas da assinatura da lei antitabaco do governador José
Serra, como se vê logo no início do palavrório:
Revista
IMPRENSA - Vocês todos fumam? Aproveitem enquanto pode. José
Mojica Marins - Não assinou ainda... Está pra assinar, daí
são três meses. Paulo César Peréio - Três
meses de trégua, então vamos marcar aqui, de fumar direto por três
meses. De manhã, de tarde e de noite. Mojica - Tá correndo.
O tempo está correndo. Depois não vai poder mesmo. Como vocês
são entrevistadores que não seguem os padrões mais clássicos
do jornalismo, a ideia é que batam um papo entre si e nós muito
raramente faremos alguma intervenção. Peréio - O esquema
tradicional é o seguinte: não pode errar. Portanto, botam o erro
no poder. É a ditadura do erro. [O nosso estilo] é briefingless
- sem briefing. Antes de se entrevistar, se faz uma pesquisa sobre o entrevistado
e, frequentemente, o entrevistador acaba sabendo muito mais sobre a vida do sujeito
do que o próprio. Já me aconteceu isso. E se é uma pergunta
sarcástica, eu dou todas as informações erradas. Aliás,
eu sou um darling da imprensa... Porque eu minto sempre. Mojica - Antes
de fazer uma entrevista, sempre levanto um briefing. Não uma pesquisa completa,
mas aquela ideia de início, meio e final. Você entra agora
na segunda temporada. Que dia você grava? Mojica - Olha...
Eu já gravei para o ano todo. Até abril do ano que vem. Só
faltam umas oito entrevistas que a gente faz quando acontece algum caso externo,
as externas, né, como se diz. Mas já gravei "Praga", "Infernet",
"Cartas" [quadros do programa]. Já está tudo pronto. Flávia
Boggio - Daqui a pouco já vai gravar o especial de aniversário
de 10 anos do programa... Peréio - É uma espécie de stock. Todo
mundo aqui já entrevistou um ao outro? Peréio - Eu já
entrevistei o Mojica, e já fui entrevistado por ele. Flávia
Boggio - A Funérea entrevistou o Zé do Caixão, e eu já
trabalhei com o Mojica e já fiz texto pra ele [o Peréio]
para o VMB [premiação da MTV]. Peréio - E eu dublei o
Mojica! Para um filme do Maurice Capovilla chamado "Profeta da Fome".
E ele ficou satisfeito. O melhor filme do Maurice Capovilla. Tinha cama de prego,
né? Mojica - Na verdade, vocês já ouviram falar
do Silk? O Silk foi um dos maiores faquires que nós já tivemos,
que ficou aqui pelo Paissandu, bateu recorde de peso. Ele ficou cento e poucos
dias sem comer, sem beber, numa cama de pregos, com cobras... E eu fiz a fita
dele sobre essa história. Peréio - A fita, a fita! Mojica
- E a ideia, Peréio, de acabar com o Pão de Açúcar?
Quer dizer, com o Cristo Redentor? Vocês concordam com essa campanha
de trocar o Cristo pelo Borba Gato [como uma das Sete Maravilhas do mundo moderno]? Peréio
- Essa campanha não é muito popular... Mojica - Certamente
não é nada popular. Flávia - Eu votaria! Se houvesse
essa eleição... Peréio - É um factóide meu.
Não tem nada.

Flávia
- Você interpreta algum personagem quando você entrevista, ou é
você mesmo [para o Peréio]? Peréio - Eu minto sempre. E
é um paradoxo, né? Como digo que minto sempre, como sempre eu estava
mentindo... [risos] Mojica - É como dizia um assessor de Hitler:
"uma mentira repetida muitas vezes torna-se uma verdade". Peréio
- O Mário Quintana costumava dizer que "a verdade é uma mentira
que esqueceu de acontecer." Se você prestar atenção,
literatura é mentira. O quanto é você e o quanto é
o personagem nas entrevistas? Mojica - Entro como Zé do Caixão,
na parte mais mística, no lado oculto. Agora, nas reportagens em que eu
saio para a rua, aí eu vou como Mojica mesmo. Peréio -
Porém com o Zé Bonitinho houve uma interpenetração[risos]!
E o "eu", segundo Theodor Adorno, é ficção. Mas
às vezes são perguntas que o Mojica também gostaria de fazer.
Com a Funérea não acontece isso também? Flávia
- Às vezes são perguntas que todos nós faríamos. Mas
a Funérea tem liberdade de fazer perguntas que ninguém teria a coragem
de fazer. Ela tem o aval de agredir as pessoas e elas acharem bonitinho, legal.
São perguntas pertinentes... Peréio - Mas aí já
estava arrumado. Flávia - É, está pré-combinado.
Mas ela pode falar que odeia a pessoa e a pessoa achar engraçado. Esse
lado despojado é o ponto comum? Soltos daquela hipócrita amarra
da "verdade jornalística"? Peréio - A verdade jornalística
é a posição da inteligência canalha, é vender
jornal. É a ditadura do erro! Eu percebi que há uma tendência
ao briefing, é tudo overbriefed. Flávia - Fazem uma pesquisa
de pauta muito rápida, jogam os assuntos e, vira e mexe, fazemos uma pergunta
que o cara fala "Pô! Essa pergunta todo mundo me faz! Aqui só
tem pergunta clichê." Mas é que a gente tem liberdade mesmo
de não fazer nenhuma pesquisa de pauta. Peréio - Mas uma vez
eu fui dar uma entrevista ao Jô Soares. Porra, ele sabia mais da minha vida
do que eu! Flávia - "Pra que eu vou contar sobre minha
vida, se você já sabe tudo sobre ela?" Peréio - Daí
eu comecei a contar tudo ao contrário e começaram a me achar mais
engraçado do que ele, porque o público dele é cativo, né?
O Jô tem uma necessidade de compensação filha da puta. Ou
seja, é a ditadura do erro. Se não pode errar, você bota o
erro no poder... Eu não: eu procuro o erro. Mojica - Eu acho
o Jô um bom comunicador. Ele consegue levar muitos assuntos na esportiva,
com graça, brincando. Acho ele um bom entrevistador. É a minha maneira
de ver. O problema do Jô é que ele só traz o que a Globo quer. Flávia
- Ele vive o meio-termo entre ser entrevistador e comediante, mas não é
atualizado. Quer fazer graça com umas piadas que já estão
antigas, mostra vídeos na internet que rodaram há seis meses e tenta
pegar um assunto - "a cocada branca que fulana gosta de comer em Copacabana"
- e ficar uma hora falando disso sem nenhuma graça. E usa o entrevistado
como escada. Parece que está cansado, fica na zona de conforto, vai esperar
aposentar. Tinha que voltar para o "Viva o Gordo". Você
já contou alguma mentira ao ser entrevistado por alguém, Mojica? Mojica
- Veja, eu posso às vezes florear alguma coisa. Peréio - Mas,
Mojica, o Zé do Caixão é ficção! Mojica
- Mas quando vêm me perguntar sobre a origem do personagem, eu tenho de
explicar. Tenho de fazer aquela média toda. Já teve programa em
que o Mojica entrevistou o Zé do Caixão e foi muito legal.
Foi para a Globo e eu me senti muito à vontade fazendo perguntas que ninguém
faria, sobre o Zé existir desde os primórdios dos tempos, segundo
os centros espíritas... Enfim, colocações como essa que ninguém
faria nunca.

Existe
entrevistado ruim, que não rende? Flávia - Tem...
Eu não vou entregar ninguém. Mas a gente procura quem sabe que vai
entrar na brincadeira da Funérea. Todo mundo topa ser entrevistado? Peréio
- Tem que agendar 50, pra sobrar 30. Flávia - Mas eles adoram,
até ligam pra fazer. Peréio - É o sujeito e o objeto. Flávia
- Mas e se os 50 que você agenda aceitam? Peréio - Não
[acontece...] Tem uns, por exemplo, o Zelito Viana, que marcou e quando fui
à casa dele, ele tava em Paris [risos]. E ele é sócio do
Canal Brasil. Flávia - Eu já levei furo do Sérgio
Mallandro. Ele conseguiu dar uns cinco canos na gente. Daí a gente fez
um desenho pra avacalhar ele, de vingança [risos]. Peréio - Mas
esse Mallandro, trocado por merda, dá prejuízo [risos]. Mojica
- Eu acho que todas essas que tinham tudo para parecer igual se tornaram diferentes
justamente por entrarem, abordarem um mundo diferente. Então saiam perguntas
e repostas que as pessoas dificilmente imaginariam como perguntar para entrevistados...
se eles acreditam em disco voador [por exemplo]. Eu já peguei pessoas famosíssimas
falando sobre isso. Para você, Pereio, eu não fiz perguntas muito
esquisitas. Perguntei sobre seu lado espiritual. Agora, por exemplo, o Sidney
Magal se sentiu muito à vontade para falar sobre essa parte mística...
Nossa, ele gostou demais! Peréio - Mojica, sabe o que o João
Guimarães Rosa falou? "Deus, se vier, que venha armado." Que
não faz milagre. Milagre é a preguiça de Deus. Vocês
assistem TV, por prazer ou por trabalho? Mojica - Eu assisto direto.
Eu procuro TV a cabo que tenha fitas e conteúdos que me interessam, porque
eu gosto mesmo. Não apenas por trabalho não. Peréio -
Qual a diferença entre filme e fita? É uma questão de geração,
né? Quando o cara fala "fita", já está datando...
Mojica - Ah, não é bem assim.... Filme é uma história
completa, realmente, que você pode levar para uma tela de cinema e que pode
passar ela hoje para internet, televisão e tal. E fita... Tem que ver de
que maneira vai... A fita pode-se dizer que é um material, Se o cara tá
falando "fita", pode ser uma fita elástica, tem várias
maneiras... Então quando o cara fala "fita" ele é de conhecimento
bem baixo de cinema. Peréio - Não, mas quem fala "fita"
é da boca do lixo. Flávia - Você assiste ao seu
programa [para o Peréio]? Peréio - Nunca. Eu gosto de assistir
chanchada, filmes recuperados. Gosto de ver cinema com Copacabana nos anos 50.
Gosto de Carlos Manga, de Watson Macedo. Mas odeio me ver. E a crítica
não me cabe, eu sou um artista. Se eu jogo essa crítica pra dentro
da minha consciência, aos poucos minha cabeça vai virar uma espécie
de júri que vai me proibir de fazer qualquer coisa. E como eu disse no
começo desta matéria, o erro é Deus. Quem tem medo de errar,
não acerta. Flávia - Mas às vezes não é
bom assistir para ver os erros que você não enxergou na hora? Eu
assisto muito à TV. Muito, muito. Luciana Gimenez, para ter repertório
trash! Peréio - Grande inspiração! [risos] Flávia
- Assisto Raul Gil, programas gringos, para imitar e fingir que foi criação
minha [risos]... Tudo, tudo! Desde coisa chique até trash. Peréio
- Trash is God! Flávia - Adoro. Minhas melhores ideias vem do
trash. Peréio - Na Alemanha, lixo é matéria-prima. Eles
compram seu lixo, você só tem que separar. Aí passa um carro
ou uma viatura do Estado, compra o lixo e é matéria-prima. Mojica
- Em São Francisco eu fui pegar um livro do lixo e me brecaram, uma gangue
pesada e me disseram para ir em tal lugar que lá eu compraria o livro.
Então eu fiquei na minha... É a máfia do lixo. Depois eu
fui ao tal lugar e comprei o livro, que tenho até hoje. E cada coisa que
tem no lixo por lá, viu... É um lixo diferente [risos].

É
porque o lixo lá vale dinheiro, é capital. Peréio
- Templo é dinheiro! O dono da Record é 171! Mojica -
É um grande homem! Porra: o cara trabalhava com loteria esportiva e resolveu
jogar na religião e ganhou. Sou fã da inteligência dele. Até
a hora que ele foi preso, usou a fita como se fosse Cristo. Ganhou mais e mais
fiéis. É um cara que eu gostaria de entrevistar. Está difícil,
mas estamos tentando. Peréio - Eu odeio ele. Eu prometo ajudar a destruí-lo
com minhas palavras. Que pergunta a Funérea faria para o bispo Macedo? Flávia
- Se eu trabalhar pra ele, vai me pagar com saquinho de dinheiro, como aquele
de desenho? E aí eu vou ter que deduzir 30% na folha? Ou são só
cinco, sem o dízimo? Vocês são religiosos? Mojica
- Por formação sou católico, mas não sou praticante. Peréio
- Eu odeio todas as religiões. Fui batizado, mas alguém lá...
Me batizaram, mas eu era muito pequenininho, não tinha condições
de me defender [risos]. Flávia - Eu não fui batizada e
minha avó, até morrer, dizia que a gente dormia de olho aberto porque
a gente ia pro limbo. Porque a gente não tinha sido batizado... Peréio
- Deve ser pra lá que vão as canetas Bic, os isqueiros... O
que vocês acham que há de pior no jornalismo hoje? Peréio
- É o refúgio da inteligência canalha. É a posição
do cinismo. O Samuel Weiner, meu ídolo, dizia que um jornal que não
dá lucro é a coisa mais escrota que existe, porque se alimenta das
contas oficiais e nunca deu certo... Flávia - Acho que eles [jornalistas]
falam como se fossem uns retardados, quando na verdade estão manipulando
completamente a audiência. Ontem eu estava assistindo o Jô Soares
e ele estava conversando com o Hélio Bicudo, falando sobre a Eliana Tranchesi:
"Mas, quem faz formação de quadrilha não é aqueles
bandidos mascarados? Não uma senhora!" Fazendo papel de bobão.

Peréio
- Sabe que na cadeia gíria é número de artigo. Por exemplo:
121, homicídio; 157, latrocínio; 155, furto; 171, estelionato. Se
for formação de quadrilha é agravante, 19. Mas para mim,
o maior agravante é "formação de família".
A mãe é o pior inimigo do homem. Mojica - Olha, eu acho
jornalista escroto aquele cara que tira partido de algo. Realmente nós
temos caras inteligentes e também caras que tiram partido. Esses deveriam
estar aqui na praça da República, sendo enforcados com direito à
cobrança de ingressos. Porque eles influenciam a cabeça das pessoas.
Jornalista tem poder muito forte. Agora, quando vai pro lado certo, ajuda demais.
David Nasser foi um puta jornalista, por exemplo. O que vocês acham
da Marília Gabrilela? Peréio - Ela é um grande veado
[risos]. Flávia - Eu acho que ela fala tanto que eu não
tenho paciência de esperar até a resposta do cara. "Porque chega
uma hora em que você vai pra lá e aí sente aquela pessoa,
sabe como que é isso?" E o entrevistado fica só olhando e responde:
"sim". Ela tenta ficar amiga da pessoa, forçar uma falsa intimidade. Mojica
- Eu acho ela uma boa comunicadora. Faz tudo para estar ao lado do seu público...
Eu acho uma boa profissional. Mas tem alguém de quem você não
gosta, Mojica? Peréio - Porque por enquanto tá puxando o
saco de todo mundo, né? Mojica -Tem. Luciana Gimenez. Uma vez,
levantei e deixei ela falando sozinha no programa dela. Já tinha ido uma
vez e fui respeitado. Na segunda vez pedi para saber quais seriam as perguntas,
para que não mexessem com minha vida particular. Mas tiveram a ousadia
de perguntar se eu tive relacionamento com a minha filha... A produção
perguntou isso e a Luciana repassou. Sei que o marido dela chegou [Marcelo Carvalho,
vice-presidente da RedeTV!], deu uma bronca. Quem me defendeu foi o Cacá
Rosset, que tava lá de júri. Foi um negócio horrível.
Nunca mais voltei lá. Já me ofereceram, mas eu não vou não. Peréio
- Quando ela me entrevistou, veio aquela voz [imitando o locutor do programa,
em voz grave]: "você fez sexo com a Sônia Braga e com a Vera
Fischer", e eu morro dizendo que não comi. E eu: "Filha ingrata,
eu fiz sexo com a sua mãe!" [risos] Aí tocou o celular, era
a Vera Gimenez que falou assim: "Não foi uma vez! Foram duas!"
E eu não comi... Morro negando! Flávia - Aí ela
falou "Minha mãe, não!", levantou e foi embora... E
o Sérgio Groissman?

Peréio
- Começou comigo, foi meu foca, na Bandeirantes, ele cobria música
[no programa de rádio "90 Minutos"]. Eu simpatizo hoje com ele.
É mais debate. Flávia - Eu acho que ele tá entrando
no problema do Jô Soares, na zona de conforto. Ele não tem mais idade
pra ficar no "Fala, garoto!", dar uma de garotão, amigo da galera. Mojica
- Ah, um outro que eu também não gosto é aquele Goulart de
Andrade. Fiz uma vez e jurei que nunca mais. Ele pegou uma série de figurantes
de manhã até altas horas da noite... Os caras eram pobres, estavam
com fome, não foi servido nem sanduíche. Muitos não tinham
dinheiro para voltar pra casa... Ele prometeu dar cachê e não deu
nada! Deixou todo mundo na mão e eu tive de ajudar do meu bolso! Eu fiquei
puto... Dali pra diante, fiquei com raiva do cara. Flávia - A
Funérea paga transporte [risos]. E o João Gordo? Peréio
- Elogios nunca serão suficientes. João Gordo é meu ídolo!
É uma questão afetiva. Ele não me afeta e eu tenho afeto
por ele. Mojica - Eu tenho falado com ele. Já fiz entrevista
com ele. Eu gosto do João Gordo, ele sempre me defendeu, acho legal, acho
bacana. Sempre achei ele um cara... Pode ser assim explosivo do jeito que for
com um cara que tem que ser sacaneado, porque ele sacaneia mesmo. Flávia
- Quando entrevistamos ele, teve um problema, pois começamos fazendo pergunta
sobre o Ratos de Porão, daí fechou o tempo, ele encarnou o punk,
cruzou o braço e virou o cara mais sério do mundo. Foi um mal jeito
de começar uma entrevista. Como funciona a entrevista da Funérea?
É você quem está lá no lugar da animação,
com o entrevistado? Flávia - Ficam eu, os dois desenhistas,
com uma pré-pauta, sentados numa posição com um ângulo
que a pessoa olha para gente e parece que ela está falando com a Funérea.
Daí a gente faz as perguntas e vai gravando as respostas. Só depois
gravamos a voz e acrescentamos alguns comentários da Funérea que
não pensamos na hora. Mojica, foi confortável para você
ser entrevistado por uma animação, pela Funérea? Mojica
- Eu entrei no clima, estava vendo uma menininha. Eu já entrei concentrado,
sabendo o que ia acontecer.

Flávia
-O Zé do Caixão falava: "Você é uma menininha
e, quando crescer, vai dar à luz o Predestinado" [risos]. E
o Peréio, a Funérea não quer entrevistar? Flávia
- Opa! Já pode ser o primeiro da próxima temporada, que vamos começar
a gravar. Você topa, Paulo? Tem transporte e alimentação [risos]. Mojica,
Onde você fez a entrevista com o Michael Stipe, vocalista do REM? Mojica
- Foi aqui em São Paulo, quando eles vieram fazer show no ano passado.
Eu tenho uma equipe de produção muito boa, tem um jornalista muito
bom, o André Barcinski, que consegue essas produções. Em
93 o próprio André me levou para São Francisco para uma série
de reportagens. Peréio, você só entrevista amigos? Peréio
- Não, veja bem, são 80 mil horas de gravação... Vou
para o sexto ano. Mas não pode ser só amigo. Já pintou uma
atmosfera áspera, me recordo agora, com a Martha Medeiros, aquela autora
do "Divã" - o mesmo nome daquele beque do Vasco, que era uma
homenagem ao Roberto Carlos, Odivan. Foi uma antipatia tão grande que morreu.
Deu 15 minutos de entrevista e nem foi pro ar. Flávia - Uma
vez aconteceu isso com a gente, com o Rogério Skylab. A entrevista deu
nove minutos, não sabíamos mais o que fazer com ele... Acabamos
fazendo uma propaganda dele, pedindo pra fazer uma perfomance. Mojica,
qual a melhor entrevista que já fez? Mojica - Olha, não
foi ao ar ainda. Acho que o Zé Ramalho. A gente já teve uma grande
amizade no passado, ele é místico demais. Ele guarda uma unha das
primeiras vezes que eu cortei, nos anos 1980... Era no Gugu ainda, no "Viva
a Noite". Eu dei uma unha que ele guarda até hoje. Qual foi
o tamanho máximo que você já chegou a ter nas unhas? Mojica
- Já passou de meio metro. Sempre me perguntam como eu faço para
me coçar, me limpar... Essas coisas. Olha, eu sempre usei um tipo de escova
que me permitia, segurando pela palma da mão, eu me coçar onde quer
que fosse sem problema nenhum. Hoje eu só tenho uma unha grande, mas já
quebrei várias vezes. Para dormir... A gente é como animal, irracionalmente,
vai se acostumando. O problema é andar, a curiosidade das pessoas... Putz,
já me quebraram a unha muitas vezes. Mas nunca me machuquei e nem a ninguém
com as minhas unhas. Se há uma coisa legal, para a mulher, é um
homem com as unhas compridas: se você passa nas costas delas, ela se arrepia
todinha, todinha... É um carinho diferente [risos]. Peréio -
Eu sei uma história sua e quero saber se é verdade. Que você
uma vez pegou emprestada umas lentes com um cara e demorou a devolver. Aí
ele foi até lá e pegou de volta, apontando: aquela, aquela e aquela.
Aí você pegou um revólver e "pá, pá, pá!".
Isso é verdade? Mojica - Mentira! Eu sempre tive muito respeito
por lentes porque o cinema é constituído por causa delas. Se tem
uma coisa que eu entendo é de lente, para se por numa câmera de cinema.
Desde a 9,8 até as menores. Agora tem uma coisa que eu não gosto:
é aquele diretor que fica gritando câmera aqui, câmera lá...
Putz, isso é chato. Quando eu coloco uma câmera num lugar é
lá que ela vai ficar. Por isso que dizem que eu gosto de trabalhar sempre
com a mesmo equipe, porque é mais fácil. Você bebe devagar,
né? Mojica -Devagar. Porque bebendo devagar, não sobe.
Eu quero estar sempre consciente. Peréio - Você está iludido.
Bate muito mais... [risos] Isso é um daiquiri? Daiquiri é bebida
de boiola. O que você está bebendo é de macho? Isso aqui é
açúcar? Mojica - Não. Isso é sal [mostrando
a borda da taça de marguerita]. Peréio - Ah, isso é sal,
então sobe a pressão. Você não tem pressão alta? Mojica
-Tenho [risos]. E muito alta, aliás. Domingo eu cheguei a 20 por 13. Quem
vocês gostariam de entrevistar que ainda não deu certo? Flávia
- Entrevistar o Peréio, que já convidei aqui. A gente sempre tenta o Ronaldo
Fenômeno, mas ele nunca topa. O Sidney Magal... A gente também convidou
o Lourenço Mutarelli, mas ele não topou.

Mojica
- Eu tô tentando entrevistar o Lula. Porque ele já falou abertamente
comigo em Brasília que ia ajudar o cinema nacional. Só que a grana
cai numa panela fechada lá do Rio de Janeiro e não sobra pra ninguém.
Fica 80% a 90% da grana com essa gente e o resto para enganar paulista ou o pessoal
do Nordeste. Sempre foi assim. O Glauber Rocha uma vez me falou que para pegar
dinheiro lá no Rio, tinha de chegar chutando a porta e falar: eu quero
dinheiro. Vai tudo para um lugar só. E os demais têm de ralar mesmo,
buscar patrocinador... Eu quero esse ano juntar grupos de todo o Brasil e ir falar
com o Lula direto. Se a Funérea entrevistasse o Lula, que pergunta
ela faria? Flávia - Ah, não sei... [pausa] Acho que
a primeira seria "Vamos tomar um goró aí?" [risos].
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