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Revista Imprensa » Edição 250 (Out/2009)
Capa - Entrevista com Felix Ximenes


Ele é o porta-voz brasileiro de uma das empresas mais amadas e odiadas pelos jornalistas mundo afora: Google. Diretor de comunicação da multinacional de tecnologia digital, Felix Ximenes atesta que o exercício pleno da atividade jornalística continua fundamental, mas seu modelo de negócio precisa de reformulação urgente. Explica porque a mídia tradicional permaneceu datada e que paradigmas da web 2.0 poderia seguir para tentar adequar-se aos novos tempos.

GOOGLE NÃO PRODUZ, SÓ INDICA

"Jornalismo deve continuar sendo exercido. A necessidade é revisar o modelo de negócio. Parques gráficos são caríssimos, e a distribuição está cada vez mais cara. É uma continuidade da crise dos anos 1980. E a internet mudou a expectativa do usuário. Adversário maior que é o tempo, a velocidade. Os mecanismos de busca, principalmente, se mostraram eficazes para encontrar essas coisas, com um baixo custo de produção, com ferramentas que se mostraram um modelo econômico muito viável, principalmente o Google. Mas nós não geramos nem agregamos conteúdo, só indicamos onde ele está. Qualquer webmaster de um grande site de notícias pode fazer um comando de poucas linhas que tira o seu portal das buscas do Google. Mas ninguém faz isso porque reconhece que damos um grande número de pageviews."

MATÉRIAS ON DEMAND

"Ninguém achou nenhum modelo de negócios que responda a crise dos veículos norte-americanos. A grande pergunta é se tem um usuário que está disposto a pagar por conteúdo on-line. O que observamos no desenvolvimento de tecnologia, participando dessa discussão toda, é o surgimento do que alguns novos executivos têm chamado de 'atomização do consumo de mídia'. Então muita gente queria ouvir uma música, mas não queria comprar o álbum inteiro. A Apple inventou o iTunes e disse assim: 'toma, aqui está a música que você quer por 0,99 centavos'. E isso foi um sucesso comercial. A mesma coisa aconteceu com vídeos, on demand, trechos curtos, que diminuiu aquele medo da indústria de cinema, aquele fantasma da pirataria. Talvez seja do interesse dos veículos em vez de vender a assinatura, o conteúdo inteiro, vender sob demanda. As matérias que atraírem o leitor seriam pagas separadamente, através de um serviço feito para aquilo. Mas é mais um modelo para se pensar, a gente não sabe ainda como vai ser.

O modelo de imprensa baseado na produção física e na consumação física está em crise. Há uma exigência do consumidor de notícia na internet por sensibilidade, customização e democratização - não quero só receber conteúdo, mas também fazer e comentar conteúdo."

PUBLICIDADE NA INTERNET

"A Google distribuiu 5 bilhões de dólares no ano passado aos parceiros de conteúdo pelo sistema do AdSense. Além disso, os produtores de notícia podem ter os próprios sistemas de banners, players e outros anúncios interativos. Há um universo enorme de novas possibilidades de publicidade on-line que os veículos não estão atentos ainda. E isso tem menos a ver com a produção jornalística do que com a atividade comercial e publicitária.
Esse fator comercial ainda é muito incerto, mas é fato que o jornalista vai continuar sendo o grande intermediador e mobilizador da sociedade. O problema é que a imprensa ainda busca se agarrar a um modelo de negócio que está sendo questionado e ainda não mergulhou para encontrar novas respostas sustentáveis, e aparentemente tem vários.

Temos notícias de parceiros de conteúdo ou de grupos de parceiros que hoje vivem exclusivamente da renda gerada pelo AdSense. No Brasil são casos isolados. Mas nos EUA, na Europa ocidental e no leste europeu é uma realidade bem estabelecida."

JORNALISMO É INSUBSTITUÍVEL

"O valor do conteúdo jornalístico é inestimável. Posso encontrar um bom texto no site de uma empresa, mas sem a credibilidade que transmite o jornalista, que vai além do tino para notícia, mas tem também o timing e o faro para encontrar o que é relevante. Isso conquista o respeito do leitor.

É animadora a clareza que o Chris Anderson tem para falar desses fenômenos. Então faz sentido que nenhum leitor queria pagar por toda notícia que consome on-line, mas esteja predisposto a pagar por um conteúdo Premium, que é do interesse pessoal dele ou fundamental para seu negócio. E esse é mais um modelo que pode ser uma saída.

Hoje a gente vê poucas ações inovadoras nessa área. Ou porque [as empresas da velha economia] não acharam ainda ou porque simplesmente não mudou. Espero que muita gente boa esteja pensando nisso para o sucesso de todos nós, porque há demanda por conteúdo de qualidade na internet. O jornalismo sempre foi muito bom em comunicar, mas talvez nem tanto em ouvir do seu leitor. E a sociedade está aí, querendo participar. Então ou damos um jeito de botar esses caras a bordo, ou eles vão zarpar sem a gente."



 
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