Publicidade
Revista Imprensa » Edição 250 (Out/2009)
Capa - Entrevista com Larry Rohter


O estadunidense Larry Rohter foi correspondente do New York Times no Brasil entre 1999 e 2007, além de ter trabalhado no país também pelo The Washington Post e pela revista Newsweek. Para o jornalista, a influência do Estado sobre a imprensa é algo que sempre existiu e que hoje é quase banal. A seguir, Rohter fala sobre essa relação de poderes, problemas com Lula, crise nos jornais impressos americanos e o papel do jornalismo hoje.

RELAÇÃO ESTADO E MEIOS DE COMUNICAÇÃO

"Acho que sempre existe uma tensão entre a nossa responsabilidade como jornalistas em informar o público, o eleitorado e o desejo de um governo em controlar o fluxo de informação e sempre apresentar a melhor imagem possível da obra e das forças daquele mesmo governo. Alguns governos ou governantes realmente vão além do permitido no sistema democrático. Quando eu era correspondente na Venezuela acompanhei as primeiras tentativas do Hugo Chavéz em sufocar uma imprensa livre e o que estamos vendo hoje com o Globovisión é o reflexo mais recente dessa tendência autocrática. O episódio com o Clarín e o casal Kirchner obviamente mostra como essas tensão existem na sociedade Argentina.

Não sei quem foi o responsável no último incidente na redação do jornal Clarín, mas suspeito que foi o Néstor Kirchner e não a atual presidenta, porque acho que ela é mais astuta nesse jogo político, acho que não faria uma coisa tão boba. Mas seja quem for o responsável, é preocupante o que aconteceu.

No caso do Sarney com o Estadão foi muito exagero. Eu estranho um pouco o Sarney tomar uma posição dessas, porque ele é raposa, veterano do jogo político e tomou uma atitude estranha e obviamente antidemocrática. Até que o Estadão tenha plena liberdade de publicar as matérias que tem recorrido é censura, disfarçada não sei, pra mim continua sendo uma censura sem disfarce."

CASO COM LULA

"Acho que foi o próprio presidente que reagiu [contra polêmica matéria de Rohter que em 2004 destacou os hábitos etílicos do presidente]. Não sei se isso é uma manifestação de uma política de Estado ou espasmo autoritário de um governante, acho que foi a segunda. Acho que foi um episódio isolado, no meu caso. Sei que a imprensa brasileira sofreu pressão e continua sofrendo pressões do governo nas mais diferentes modalidades.

Eu tenho que dizer uma coisa sobre Fernando Henrique Cardoso: ele aguentou a crítica com uma serenidade que eu achava impressionante. Com o PT é um pouco diferente, porque ele acha que é dono da verdade, que o PT aponta o único caminho correto e qualquer crítica é mal intencionada, antipatriótica, ou parte de uma campanha de difamação dirigida pelas agências de inteligência dos EUA, como alegaram no meu caso. Que bobagem. Claro que eu sabia que o governo não ia gostar da matéria, mas as dimensões que a situação tomou, isso sim me surpreendeu, a ordem de expulsão foi uma surpresa desagradável. Já fui preso duas vezes na ditadura do Pinochet, no Chile, fui expulso de Cuba durante a crise de Mariel em 1980, tive desavenças com o governo chinês quando era correspondente lá e aqui no Brasil durante a ditadura, em 78, quando andei fazendo uma investigação da guerrilha do Araguaia em Marabá o governo do Geisel tentou me prender. Fui preso também no Panamá, na ditadura do general Moriega. Estava cobrindo manifestação na rua e me prenderam, me ameaçaram etc. O jornalista incomoda. E quando esta fazendo um trabalho que incomoda, às vezes os governantes acham que a solução é prender ou expulsar. Acho isso, não vou dizer normal, mas acontece. E o jornalista tem que aprender a viver com isso. Agora é sempre importante contornar um episódio desses."

SITUAÇÃO DOS JORNAIS AMERICANOS

"Está sombrio. Nós estamos vivendo algumas dificuldades [no New York Times], mas nosso compromisso é com a qualidade e uma cobertura ampla do país e do mundo continua intacta. Mas você vê que outros jornais estão fechando sucursais no exterior, reduzindo o número de correspondentes em Washington e nas capitais dos estados por necessidade econômica. Não sei como vai ficar. Na verdade acho que as redes de televisão estão sofrendo mais e as revistas semanais também. Chego aqui no Brasil e acho impressionante ver como uma revista como Veja continuar com tantos anúncios e os jornais também. Dos quatro mais importantes, nacionais, parece que só o JB está sofrendo muito, muito mesmo. Ver um jornal no domingo ou no sábado e ver a fartura dos anúncios me dá inveja."

PAPEL DO JORNALISMO

"Tem mudado. Com o surgimento desses novos mecanismos, sobretudo a internet, o processo mudou e o leitor tem mais possibilidades de conversar com o jornalista, o editor. Virou um processo muito mais interativo, eu acho. Mas sempre haverá a necessidade de um jornalismo bem feito. Você pode falar de plataforma, mas a necessidade em si nunca vai desaparecer numa sociedade democrática. Que existe uma crise, existe, mas seria catastrófico falar no fim do jornalismo. O bom jornalismo sempre vai encontrar um canal de se expressar. E o leitor que valoriza a informação sempre vai encontrar uma maneira de ler aquele jornalismo, seja num site, num jornal."



 
:: veja edições anteriores
Ed. 251 - Ex-Livre? (Nov/2009)
Ed. 250 - O jornalismo morreu (Out/2009)
Ed. 249 - Quarentão Repaginado (Set/2009)
Ed. 248 - Qual é a graça? (Ago/2009)
Ed. 247 - Vote hoje para 2010 (Jul/2009)
Ed. 246 - Padrão no horário nobre (jun/2009)
Ed. 245 - O xis da questão (mai/2009)
Ed. 244 - A reinvenção da roda (Abr/2009)
Ed. 243 - Católicos, comunicai-vos (mar/2009)
Ed. 242 - O Cérebro da Veja (jan/2009)
Ed. 241 - Brasil real, banda virtual (dez/2008)
Ed. 240 - Silvio Santos vem aí (nov/2008)
Ed. 239 - Rainha do rádio (out/2008)
Ed. 238 - Blogueiro não é jornalista (Set/2008)
Ed. 237 - Jornais para todos (ago/2008)
Ed. 236 - Barrados no Congresso (jul/2008)
Ed. 235 - Zeca é pop (jun/2008)
Ed. 234 - Crime & Mídia (mai/2008)
Ed. 233 - Amada por uns, odiada por outros (abr/2008)
Ed. 232 - Fé cega, faca amolada (mar/2008)
Ed. 231 - Jornalismo, profissão perigo (Jan/2008)
Ed. 230 - O (super) mercado gay (Dez/2007)
Ed. 229 - Milton Neves versão light (Nov/2007)
Ed. 228 - Os escombros da reforma (Out/2007)
Ed. 227 - O filho da Folha (Set/2007)
Ed. 226 - Ruy Castro, sem censura (Ago/2007)
Ed. 225 - A Indústria da Fama (Jul/2007)
 
Envie esta matéria a um amigo   Adicione-o aos seus favoritos
Imprima esta página   Envie seu comentário à redação
 
Edição 251 - Nov/2009  
Ex-Livre?  
Censura contra Estadão é sinal de corrupção generalizada segundo Fernão Lara Mesquita  
  Enquetes  
  A uma emissora da Inglaterra, 64% dos telespectadores disseram que não mudariam de canal se o apresentador tivesse algum problema facial. O canal quis comprovar e contratou um profissional com o rosto repleto de sequelas de um acidente. Para você, a aparência é fundamental para estar na TV?  

votar  ver resultados

 
Rua Rego Freitas 454 - 6º Andar - Conjunto 61 - Vila Buarque - São Paulo - SP - CEP 01220-010
Telefone/Fax: 55 11 2117-5300    -    Todos os direitos reservados
Copyright ® 2007 - Imprensa Editorial Ltda.