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Capa - Entrevista com Ciro Marcondes Filho
Jornalista, sociólogo e tradutor, Ciro Marcondes Filho é também professor titular da ECA-USP, coordenador do Núcleo de Estudos Filosóficos da Comunicação (Filocom) e autor dos livros "Ser jornalista" e "Dicionário da comunicação". Com base em seus notórios trabalhos nas áreas de comunicação e jornalismo, Ciro falou à IMPRENSA sobre credibilidade e as novas formas da notícia.
MUDANÇA DE PARADIGMA
"Evidentemente, o jornalismo continuará. É equivocado pensar que o aparecimento da internet e a o afluxo exponencial de informações vindas dos mais diferentes pontos e pessoas fará desaparecer a atuação do profissional de imprensa. O que mudou, efetivamente, foi o procedimento de captação. Hoje, o jornalista busca menos, sai menos à procura de fatos, porque afinal a sociedade tecnológica os fornece largamente.
Antes de a internet explodir, já havia as assessorias de imprensa e as estratégias dos profissionais em relações públicas que abasteciam continuamente as redações com material semipublicitário, semijornalístico. Hoje esse movimento simplesmente inundou de tal forma a prática jornalística que tornou os profissionais desacostumados a sair à caça de informações. Elas vêm automaticamente. Pode-se dizer que isso tornou o repórter mas preguiçoso, menos 'batalhador' pelo novo. Seu perfil efetivamente mudou e ele se tornou mais adaptado às condições tecnológicas. Não obstante, o grande público não fica sem o jornalista porque, primeiro, não pretende montar sozinho seu jornal; segundo, necessita de alguém que faça por ele a triagem entre as informações interessantes e aquelas que são mero lixo; e, terceiro, continua a existir a necessidade de ouvir uma opinião informada para pensar e agir.
O jornalismo é um sistema muito flexível e muito adaptável. Nos atuais tempos, ele se reinventa como operador de notícias on-line, o que não existia antes. Compete com blogs, sites, twitters, e toda sorte de fornecedores de informação, mantendo-se e superando-os pela distinção de produzir notícias confiáveis e assinadas. Diferente dos outros, ele ainda goza do prestígio de 'ser do ramo', de ser especialista na produção do novo e das novidades."
ACESSO À INFORMAÇÃO
"O usuário normalmente tem condições de obter as informações que procura. Basta digitar uma ou duas palavras no Google que já aparecem milhares de páginas a respeito. Mas não tem condições de dar sequência a isso, de trabalhá-las, de fazer com elas uma síntese ou uma elaboração maior. Ele só chega à porta de entrada mas não avança nos cômodos dessa imensa construção. Porque não foi escolado para isso, porque não tem a formação e o treinamento para filtrar, sintetizar, realizar uma notícia. Os usuários sabem brincar, apostam no lúdico da internet, não querem ter esforço; como diz o Gonzaguinha, eles só querem ser felizes. Mas a informação mesmo eles obtém da imprensa, prêt-à-porter.
O fato de as informações da internet serem gratuitas não inviabiliza o jornal, exatamente porque estão 'a granel'. As pessoas pagam para obter o serviço daqueles que trabalham essa informação e as buscam em pequenas quantidades mas já elaboradas. Alguém faz o trabalho do meio de campo. Essa é - como sempre foi - a função do jornalista."
NÍVEIS DE CREDIBILIDADE
"Nos tempos atuais, chamados por alguns de 'pós-modernos', toda informação, todo saber, toda tradição, em suma, toda a cultura encontra-se em 'crise de credibilidade'. É o sinal dos tempos. A constatação de que não existe verdade, que a objetividade é uma farsa, que nada é apresentado de forma realista, porque o 'real' não existe, tudo isso assinala uma época em que só nos deparamos com versões. Além das versões não há nada.
Mas, naturalmente, há níveis de incredibilidade. Os políticos talvez sejam a classe com menor credibilidade porque visivelmente escondem os fatos, burlam as leis e a justiça, enganam descaradamente a opinião pública. Mas também outras instituições com os bancos, grandes empresas, as igrejas, as escolas, as universidades, a família, todas elas com sua credibilidade reduzida num mundo em que a seriedade no informar, a honestidade do trabalho é ridicularizada. Afinal, nos dias de hoje, em quem se pode acreditar se até mesmo nas relações íntimas, intersubjetivas, passionais, o jogo e a farsa predominam? Só sobrevive um princípio ético de cada pessoa, aquele que é supervisionado pelos valores e que tem que prestar contas à consciência de cada um: o de poder olhar sem os óculos mutiladores dos preconceitos, das opiniões preformadas, que falsificam qualquer sinal do mundo externo sem que estes sequer possam aparecer e se mostrar."
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