Outro dia foi dona Domingas Borges, uma senhora de cabelos brancos trançados, quem impôs a condição para a entrevista. Respondeu ao “boa-tarde” com um balançar de cabeça e sequer lançou a mão para um cumprimento formal. O silêncio se instalou. Demorou e incomodou. “Lá pelas bandas de Pernambuco, a gente gosta de abraço e de três beijinhos no rosto. Aqui no Maranhão é assim também?”, emendei. Aproveitava um longo suspiro dela, espécie de sinal de que o encontro estava por se encerrar.
Domingas esbugalhou os olhos e se rendeu à insistência. “É que ninguém quer tocar em mim”, revelou, escondendo a voz na garganta, a moradora do Hospital Aquiles Lisboa, antiga colônia de hansenianos do Bonfim, em São Luís. A partir daí, as confidências se multiplicaram. “Quando cheguei aqui só tinha urubu para brincar”, discorreu entre um tanto de frases. Era Domingas revendo sua história e explicando que, mesmo curada, convive com o preconceito.
A 800 quilômetros de São Luís, em Betânia do Piauí, miolo do semiárido, deparei-me com seu Mamédeo dos Santos. Convidou-me para sentar na soleira da casa. Conversa vai, conversa vem, surgiu a pergunta: “Com dez filhos, às vezes, falta comida, seu Mamédeo?”. Ajeitou o colarinho, fechou o quinto botão da camisa. Virou a cabeça para um lado. Esfregou as duas mãos. Nenhuma palavra emitida, nenhum som, e ali parou no tempo. Calei junto. Com seu Mamédeo, percebi o quão difícil é para um pai, arrimo de família, falar de fome.
Em Mata Grande, Sergipe, esperei o tempo e a tradução do que seu Antônio de Moura pretendia me dizer. Fazia um trabalho sobre o impacto da internet nos grotões. Meia dúzia de jovens tentou me convencer de que o ancião nada sabia sobre tecnologia. Seu Antônio, cidadão de 92 anos, sustentou um irônico sorriso de canto de boca durante a provocação da garotada. Após debandada geral, a sabedoria prenunciada pelo sorriso: “Nunca usei computador ou intemete (sic), mas isso está mudando o mundo”.
Há muitos anos viajo pelas estradas do Nordeste. Nessas andanças me dei conta de que as melhores entrevistas com o povo têm a compreensão das nuances da comunicação, além da verbal. A expressão dos gestos, a palavra engolida, a forma como a frase é entrecortada, os olhos que às vezes se reviram ou miram em um ponto que parece não estar ali e o meio em que essas pessoas se inserem estão no antes, durante e depois da reportagem. São matérias-primas para o repórter. Abrem portas, ampliam a visão e tornam o jornalista mais próximo da realidade que ele – em vão? – tenta retratar em detalhes.
Começo esta coluna com um sentimento construído nos encontros com meus personagens: até na era da internet, muitas vezes, a essência dos entrevistados está mais nos seus silêncios do que nas suas falas.
Coluna publicada na edição de jan/fev (275) da Revista IMPRENSA
Silvia Bessa é repórter especial do Diário de Pernambuco. Escreve sobre questões sociais e direitos humanos no Nordeste. silviabessape@gmail.com.
Silvia Bessa é repórter especial do Diário de Pernambuco. Escreve sobre questões sociais e direitos humanos no Nordeste. silviabessape@gmail.com.