A jornalista e escritora Giovana Damaceno encontrou as letras antes mesmo de se deparar com o jornalismo e não sabe precisar ao certo o que pesa mais em sua vida: a escrita de crônicas ou o trabalho jornalístico. O fato é que um alimenta o outro.
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Jornalista experiente do sul fluminense, trabalhou na afiliada da rede Globo na região de Volta Redonda, foi professora do curso de comunicação social, é assessora de imprensa, editora da revista Maisalegria! e coordenou por dois anos consecutivos um workshop na Casa Clube de Autores, durante a Festa Literária Internacional de Parati (Flip), sobre autodivulgação.
Segundo a jornalista cronista, o sonho de qualquer autor continua sendo o de ser descoberto por uma grande editora, mas diz que para quem ama escrever não é possível esperar. “Publicar de forma independente é a opção que a maioria dos autores tem para ver seu livro publicado. Esse processo em uma editora comum pode ser muito demorado”, comentou Giovana. Segundo ela, a publicação fora do circuito não pode ser ignorada já que no Brasil existem hoje mais 800 mil livros publicados sem o aval das grandes editoras, porém quem quer editar dessa forma não pode descuidar da divulgação para que o livro não corra o risco de ficar esquecido na estante virtual.
Giovana começou a pensar autodivulgação para tornar público seus próprios trabalhos como cronista. Além do blog pessoal onde divulga suas crônicas, ela publicou em 2010 o “Mania de Escrever” e agora, em 2012, edita “Depois da chuva, o recomeço”, ambos pelo site Clube de Autores, que permite a publicação de livros com impressão 100% sob demanda. Para Giovana, por mais hilário que possa parecer, os autores ainda erram muito ao escrever textos de divulgação do seu trabalho e que as redes sociais se bem usados podem potencializar a visibilidade dos autores. Nessa conversa a autora também fala um pouco sobre seu próprio processo de escrita, jornalismo e o desafio de escrever sobre sua experiência de enfrentar – com humor – o tratamento contra o câncer.
IMPRENSA: Você publicou dois livros pelo clube dos autores e participa ativamente em eventos desse modo de edição. O que pensa sobre esse novo modo de publicar?
GIOVANA DAMACENO: É uma oportunidade para quem não tem a chance de ser encontrado no palheiro ou para quem não dispõe de dinheiro suficiente para pagar por uma edição. Para estes, o Clube de Autores é um dos espaços virtuais em que se publica uma obra sem nenhum custo. A obra é postada no site do clube e imediatamente é colocada à venda. O próprio autor define o preço do livro, de acordo com a comissão por direitos autorais que pretende receber. O leitor, por sua vez, ao efetuar a compra, seu pedido é encaminhado direto à gráfica, que imprime o livro e envia pelo Correio. O prazo de entrega é de cinco dias úteis.
Como você entrou na autodivulgação?
Divulgando meus próprios trabalhos porque a publicação independente requer muito trabalho. Como sou assessora de imprensa, em 2010 e 2011 fui convidada pela Casa Clube de Autores, na Flip para falar sobre o assunto e topei o desafio. A casa é frequentada por autores independente que não conhecem o dia a dia de uma redação, assim, montamos um bate-papo com os itens básicos para jovens autores possam fazer a divulgação dos seus trabalhos.
Quais são as coisas mais importantes para um autor divulgar seu trabalho?
Tudo é importante. Começa pelo texto, passando pela foto, até pelo o trato pessoal. Na autodivulgação a imagem diz muito e o autor não pode descuidar deste detalhe.
O que os autores mais erram ao divulgar o seu trabalho?
O texto de divulgação (risos). Por mais incrível que possa parecer os autores erram muito no “release” de divulgação do livro e isso é inadmissível. O autor tem que se comprometer muito com o seu texto e antes de enviar para um jornalista deve fazer uma revisão rigorosa. Uma pessoa que se diz autor tem obrigação de escrever corretamente. Outro erro comum é na imagem. Geralmente os autores não dão muita atenção para a imagem de divulgação do seu trabalho e acabam divulgando fotos bem precárias.
As redes sociais ajudam no processo de divulgação?
Eu quero acreditar que sim. Eu mesmo tenho nas redes contato diário com editoras e com leitores. É um espaço de troca e de aproximação que não deve ser desprezado.
Você participa ativamente da Flip. Conte um pouco sobre seu engajamento na festa?
A Flip é meu grande compromisso literário anual. Procuro me organizar desde o início do ano para poder me hospedar (ou acampar mesmo) e comprar os ingressos para assistir quantas mesas de debates da programação oficial for possível.
Estou lá desde 2006, quando era editora-chefe do programa Conexão no Ar. Em 2007 fui selecionada para a Oficina Literária e em 2008 fui apenas no sábado; em 2009 não fui por causa do tratamento contra o câncer – estava em plena quimioterapia; em 2010 e 2011, além de assistir à programação oficial, fui palestrante na Casa do Clube de Autores. Este ano estava lá de novo. Não temos em nenhum município na região do Sul Fluminense um encontro literário minimamente proveitoso. Se houver, desconheço. E sou ávida por aprender, ouvir o outro, saber o que está sendo feito e falado fora deste meu mundo tão pequeno do interior. E a Flip é meu grande encontro com a literatura mundial. Vou lá quase que exclusivamente para ouvir os escritores convidados em seus papos nas mesas de debates. Aprendo muito com eles, me atualizo, me informo, e volto outra. Sempre.
Como você começou a escrever crônicas?
O hábito de escrever começou cedo, não saberia precisar quando. Na adolescência tinha a tendência de falar de mim, dos meus sentimentos, daquelas paixões arrebatadoras para a vida toda, que duram poucas semanas. Mas uma temática sempre presente eram as pessoas. Gastava linhas e linhas, por exemplo, para descrever uma amiga da escola, opinar sobre suas atitudes, comportamento, elogiar ou não. Creio que um dos fatores que me levaram ao jornalismo foi este gosto por escrever. Mas demorou um bocado até eu ter a mínima noção de que escrevia crônicas, pois tudo o que eu produzia era pra mim; uma necessidade quase diária de esvaziar o HD. Via algo, presenciava uma cena, passava por situação qualquer, e lá vinha a vontade de escrever sobre aquilo. Era uma vontade de contar a alguém, só que contava apenas a mim. Escrevia e guardava. Ou jogava fora. Até que um dia tive a coragem de mostrar meus textos e me expor à avaliação de alguém. Acabei sendo muito incentivada a mergulhar seriamente nisso. “Você só precisa deixar de ser tão capricorniana. Solte-se; tire os pés do chão.”
Você obedeceu?
Sim, foi o que fiz. E neste mesmo ano – era 2007 – a Flip homenagearia Nelson Rodrigues e a Oficina Literária seria de crônicas, ministrada pelos jornalistas Joaquim Ferreira dos Santos e Arthur Dapieve. Tomei coragem e enviei os dois textos solicitados para o processo seletivo. Fui selecionada para compor a turma de 30 aspirantes a cronistas. Desde então, passei a levar este negócio a sério.
Suas crônicas partem da observação do cotidiano. Você acha que é influência da sua formação em jornalismo?
Como disse, sempre gostei de observar pessoas. Sempre fui muito crítica do comportamento humano e isso começou mesmo dentro de casa. Sou a caçula de uma família muito conservadora e este choque de gerações me provocou uma enxurrada de questionamentos a vida inteira. Quando comecei a ter o mínimo entendimento destas discordâncias e seus significados, passei a escrever com mais frequência sobre gente. E daí para falar das pessoas do mundo à minha volta, além da família, foi um pulo. O jornalismo aprimorou o impulso de falar de gente, me proporcionou a leitura sistemática, me deu técnica de observação e de descrição, me ensinou a ver além da superfície. Aquele olho treinado que nos leva a enxergar dentro, atrás, dos lados, e não somente um objeto cru à nossa frente.
Quando você pensou seriamente em reunir as crônicas em livro?
Fiz isso a primeira vez com o livro “Mania de Escrever”, lançado em 2010. Na verdade, era para ele ter sido lançado em 2008, quando fiz 40 anos. Uma amiga deu esta ideia, de reunir minhas 40 melhores crônicas em um livro para comemorar meus 40 anos. No meio da produção – ainda selecionava os melhores textos – houve um problema grave de doença em família, que interrompeu meus planos no fim de 2008. Logo depois, já em 2009, seria eu a descobrir que estava com um câncer de mama. Então tive de adiar um pouquinho o meu projeto. Mesmo em tratamento, continuei o trabalho de produção, mas foi mais lento.
Seu primeiro livro conduz o leitor a participar um pouco da sua vida, o segundo livro tem o mesmo toque intimista?
Acho que crônica é como um papo ao pé do ouvido, tipo conversa de bar. Tenho vontade de contar algo a alguém, ou de comentar um fato, descrever algo que vi ou ouvi; falar sem ter nada a dizer; até mesmo fazer um desabafo (por que não?); então, vou lá e escrevo. O segundo livro tem, sim, o mesmo tom, embora naturalmente penso que esteja mais maduro que o primeiro "Depois da chuva", o recomeço é o nome do seu segundo livro.
Quem conhece um pouco da sua história é inevitável associar ao processo que você passou na luta contra o câncer. O livro tem a pretensão de falar deste processo? De como você conseguiu passar pela chuva?
Ainda não, embora tenha texto na seleção que cite um pouco desta experiência. “Depois da chuva, o recomeço” é título de uma das crônicas e ela não fala do câncer; fala de chuva mesmo, (risos). O livro que conta como consegui passar pela tempestade que é um câncer está sendo escrito. Comecei a organizá-lo em janeiro. Na época, quando fui diagnosticada com a doença, precisei decidir muito rápido de que forma passaria por aquele turbilhão e de como manteria meu relacionamento com amigos e leitores que me acompanhavam. E decidi ser aberta, falar (quase) de tudo, expor o que estava ocorrendo comigo, confessar dores e medos. E decidi também que faria daquele limão uma caipirinha. Consegui passar pela doença e difícil tratamento com o máximo de bom humor possível, me comunicando com as pessoas como sempre me comuniquei, escrevendo minhas crônicas e falando do que se passava comigo
(está tudo no meu blog, no marcador “O ano do meu crescimento”).
Como será este livro?
O que estou fazendo para compor o novo livro é juntar tudo o que foi escrito na época, com textos complementares que estou incluindo agora, para tornar a história compreensível, com uma cronologia dos fatos. Neste livro incluo também cartas que enviei a amigos, comentários que recebi no meu blog, fotos, até uma poesia que uma amiga escreveu sobre meus dias de escuridão (pós-quimioterapia). Mas, para este livro ainda não tenho prazos. Estou escrevendo...e, claro, não tem a menor pretensão de ser um livro de autoajuda.